sábado, 27 de setembro de 2008

Ensaio sobre uma prática competente


Vanessa Vasconcelos Pereira


Não há como negar que o momento presente nos questiona, logo, devemos estar atentos aos dilemas de nosso tempo. As inquietações e as dificuldades que vivemos em nosso cotidiano apontam a urgência de pensarmos juntos as condições e possibilidades de nossa prática. Não podemos nos deixar minar pelos desencantos e as barreiras impostas, mas sim acreditar na construção de novos rumos para a sociedade.

Desvelar a prática cotidiana exige inseri-la no quadro das relações sociais fundamentais da sociedade, ou seja, entendê-la no jogo tenso das relações entre as classes sociais, suas frações e das relações destas com o Estado. Para efetuar uma análise crítica das demandas profissionais, há que conferir densidade histórica à nossa problemática. Deve-se privilegiar a história por ela ser a fonte de nossos problemas e a chave das suas soluções.

Para analisar a realidade é importante que o profissional recorra às mediações, que são formas de chegar ao conhecimento real, é o caminho para se conhecer o objeto de estudo. Mediação é tudo aquilo que relaciona homem/natureza e homem/sociedade,é uma categoria que têm que estar em qualquer realidade, independente do sujeito.

A instituição aparece como um espaço privilegiado na execução de controle e disciplina do espaço de cotidianidade da população. O Serviço Social lida diretamente com e no cotidiano da população, criando um “espaço de confrontação”, que propicia a emergência de um processo de tomada de consciência que muda as relações entre os profissionais e as normas da instituição. E este conflito que existe nas instituições, nos mostra que elas são lugares em que as forças se enfrentam e, é neste sentido que nós podemos entender o processo de mediação.


“ A categoria de mediação exprime a acepção de espaço de confronto e de contradições, no qual se podem conquistar, ou não, avanços no trabalho de conquistas institucionais e políticas da população cliente das políticas sociais.”(PONTES,1995,p.105 )


A instituição em si é um espaço onde se coloca uma rede de mediações, que cabe ao assistente social desvendar. As estratégias profissionais,dependendo da sua complexidade e profundidade, articulam mais ou menos mediações, podendo até se confundir em um complexo de mediações, mas não se constituem em uma mediação.

Ao analisar as demandas que nos são impostas devemos pensar também nos processos de trabalho, uma vez que as mudanças ocorridas nos mesmos alteram, dimensionam e redimensionam a demanda das políticas sociais. Elucidar essa problemática é essencial para que o assistente social consiga compreender o universo da população usuária, rompendo com o discurso monolítico sobre “ a classe trabalhadora”, para apreender as distinções e particularidades de seus vários segmentos.

O crescimento da pressão nas demandas por serviços por parte da população usuária decorrente de sua pauperização se choca com a já crônica falta de verbas e recursos das instituições.Amplia-se cada vez mais a seletividade dos atendimentos, fazendo com que a universalização dos direitos sociais se torne “letra morta”.Diante desse quadro, o assistente social vê-se, institucionalmente,cada vez mais compelido a exercer o papel de “juiz rigoroso da pobreza”. O proclamado “direito do cidadão” é substituído pelo “mérito da necessidade”, cabendo à assistência social privilegiar as situações graves e agudas, na condição de ajuda e de pronto socorro social. Não há preocupação com “a doença, sua cura ou prevenção”, mas com a redução, ainda que precária e imediata do grau de gravidade da situação do doente. Ou seja, não se investiga o porquê daquela demanda, apenas ela é solucionada.

É essa realidade de precariedade dos serviços públicos que enfrentamos e da qual temos que partir, porém não podemos deixar que ela nos asfixie. Não temos de ser ao imobilismo, à descrença,à desilusão profissional. Quando partimos de uma visão idealizada do real,com instituições e usuários perfeitos, a realidade torna-se um obstáculo e passa a ser vista com o que impossibilita o trabalho. Assim, não a deciframos e não conseguimos descobrir seu movimento concreto, os desafios e as possibilidades de trabalho.

É pelo conjunto do trabalho realizado pelos assistentes sociais que a profissão é reconhecida ou não, valorizada ou não, conquista sua autonomia e espaços ou não. Sem condições de prever, captar e priorizar demandas reais e potenciais, as assistentes sociais vêm negando ou transformando novas e antigas demandas em obstáculos à prática profissional e/ou dando respostas que se resumem em informações, apoios, aconselhamentos, etc.


“(...)há uma desconexão, uma fratura entre a prática ' profissional realizada pelos assistentes sociais e as possibilidades de prática postas na realidade objeto da ação profissional, as quais só podem ser apreendidas a partir de uma leitura crítica dessa realidade,fruto de uma conexão sistemática entre o trabalho profissional e o debate hegemônico na categoria.”(VASCONCELOS,2007,P.119)


Por vezes a prática se resume ao assistente social esperar de forma passiva que os usuários busquem espontaneamente ou sejam encaminhados ao Serviço Social. O usuário é recebido, ouvido e encaminhado para recursos externos e /ou internos, tendo como prioridade o “bom” andamento da rotina institucional, os recursos disponíveis e as demandas explícitas dos usuários.

Para uma prática profissional competente, se faz necessário captar o que está oculto na “queixa” manifestada pelos usuários. Pois não é possível que qualquer questão que a realidade coloca como demanda que é possível empreender ações que realmente articulem-se aos interesses e necessidades das classes que vivem do trabalho.

O assistente social deve avaliar constantemente a sua prática,o que significa apropriar-se da realidade dos espaços profissionais ocupados pelo Serviço Social com as análises, estratégias e ações realizadas no seu enfrentamento, buscando uma ação pensada, consciente, dinâmica, articulada à realidade social. Para isso é primordial a união entre exercício profissional e espaços de formação, na medida em que não há projeto de formação que prescinda da realidade,assim como não há projeto de profissão que prescinda da teoria.

“O que está em jogo para os assistentes sociais que objetivam uma ação profissional que rompa com o conservadorismo preponderante no domínio da prática é a apropriação de uma perspectiva teórico- metodológica e ético-política, que, colocando referências concretas para a ação profissional, possibilite a reconstrução permanente do movimento da realidade objeto da ação profissional, gerando condições para um exercício profissional consciente, crítico, criativo e politizante, que só pode ser empreendido na relação de unidade entre teoria e prática.”(VASCONCELOS,2007,p.130)



BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:


“Demandas e Respostas da Categoria Profissional aos Projetos Societários” VII Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, SP,1992


FALCÂO,Maria do Carmo. A seguridade na travessia do Estado assistencial brasileiro. In:Os direitos (dos desassistidos) sociais. Aldaíza Sposati, Maria do Carmo Falcão, Sônia Maria Fleury Teixeira(orgs.).5° ed.São Paulo, Cortez,2006


PONTES, Reinaldo Nobre.Mediação e Serviço Social.São Paulo, Cortez,1995.


SPOSATI, Aldaíza. A assistência e a trivialização dos poderes de reprodução social. In:Os direitos (dos desassistidos) sociais. Aldaíza Sposati, Maria do Carmo Falcão, Sônia Maria Fleury Teixeira(orgs.).5° ed.São Paulo, Cortez,2006


VASCONCELOS, Ana Maria de. Serviço Social e prática democráticas. In: Política social e democracia. Maria Inês Souza Bravo, Potyara Amazoneida Pereira Pereira (orgs.), 3° ed. São Paulo, Cortez;Rio de Janeiro: UERJ, 2007

9 comentários:

Ariana disse...

Vand, ótimo o seu artigo. Sabemos o quanto é desanimador quando nos deparamos com algumas práticas passivas. O quanto é importante uma prática comprometida q busque sempre uma ação consciente. Vc colocou isto de uma forma bem clara.
Bom vc está de parabéns!!!!!!!!!!
Abraço!

Viviane disse...

Parabéns,Vand!!! Faço minhas as palavras de Ariana!!!

Cat disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariana disse...

Vand, adorei o artigo que você escreveu!Soube expor com clareza! Parabéns!!!

nana disse...

q orgulho dessa prima...
mando no artigo em..
to feliz por ti, por mostrar q ta gostando do q ta fazendo, isso mostra q vc sera eh jah esta sendo uma otima profissional, vai amar o q faz....
parabens msm...
beijos

Vivi disse...

é muito robert!!! olha só o tamanho da foto da criatura...

Renato Gonçalves disse...

Fala(quer dizer escreve...)minha estagiária preferida!!!!!!!
Parbéns a todas pela iniciativa.Adicionei aos meus favoritos,agora é tabalhar e manter uma rotina de postagens pois blog é um espaço dinâmico que dev se viv.Um abraço,Renato

Ação Direta Estudantil disse...

TAMBÉM TEMOS UM BLOGA E GOSTARIA QUE DESSEM UMA OLHADA! É SOBRE O COLETIVO DE SERVIÇO SOCIAL ORGANIZADO PARA COMBATER A ATUALCONDIÇÃO ELITISTA DA UNIVERSIDADE PÚBLICA!http://sesoemluta.blogspot.com/

raito disse...

Você está de parabéns minha cara. Soube expor de forma clara e objetiva diversas situações emergentes em nossa sociedade.
Como a sua carreira mesmo diz "AÇÃO SOCIAL", devemos provocar ações e meios adequados a provocar um choque de gestao na sociedade de forma a mudar radicalmente a sua forma de valorizacao, de forma que devemos valorizar o ser humano pelo o que ele e como pessoa e nao como meros objetos.
Com isso concluimos que temos de rever os nossos conceitos sociais de forma a concretizar uma sociedade coerente, critica e nao seletiva e "doente". A verdadeira mudança ocorre em nós inicialmente, pois se mudarmos a nós mesmos mudamos o nosso universo ao nosso redor. Cabe a cada um de nós fazer o mundo um lugar melhor.

FACA VC A SUA PARTE!

Vanessa te adoro muito minha linda!!! Bjs!

Theu