Efetivação de direitos. Socialização de informações. Planejamento e intervenção. Lutas, muitas lutas. Desafios. Superação. Ir além. Pra vc que ainda não sabe o que é o Serviço Social, é bom saber o que não é: assistencialismo, senso comum, politicagem, preconceito, conformismo, individualismo, caridade. Um bom coração não faz um bom profissional, tampouco um diploma na mão. Somos aqueles que remamos contra a maré. Confrontamos o próprio empregador. Vamos além das possibilidades. Demanda surgida é demanda combatida. Conhece alguma outra profissão que caberia nessa descrição? DIA 15 DE MAIO, DIA DO(A) ASSISTENTE SOCIAL. Eu sou e tenho muito orgulho. Parabéns aos meus colegas.
Copiei da colega de profissão Darana Azevedo que postou isso no facebook. :)
Este Blog foi criado para fins acadêmicos e nele são postados artigos e trabalhos com os quais pretendemos contribuir para a construção de uma prática profissional reflexiva. Para entrar em contato conosco, envie e-mail para: servicosocial.uffcampos@gmail.com Se quiser publicar o seu artigo, resumos,resenhas ou qualquer material que possa contribuir, é só entrar em contato.
terça-feira, 15 de maio de 2012
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Esclarecimentos
Olá, pessoal!
Gostaria de pedir desculpas por não estar havendo atualizações no blog ultimamente. Me recém-formei como Bacharel em Serviço Social e tenho estado com a vida bem corrida. Foram meses dedicados à elaboração da minha monografia e tenho estudado muito para os concursos. Mas não me esqueci de vocês.
recentemente recebi alguns materiais que prometo publicar o quanto antes e aproveito a oportunidade para agradecer aos que os enviaram.
No mais, não deixem de participar, comentar, divulgar e enviar material para o nosso blog. Precisamos manter a nossa categoria unida e informada. Ultimamente, na realização desses concursos públicos, tenho presenciado coisas bizarras que a sociedade pensa da nossa profissão. É um desconhecimento e uma desvalorização total. Lamento muito ter que ver isso tudo.
Atenciosamente,
Viviane G. de Castro
Agora sim, Assistente Social! ;)
Gostaria de pedir desculpas por não estar havendo atualizações no blog ultimamente. Me recém-formei como Bacharel em Serviço Social e tenho estado com a vida bem corrida. Foram meses dedicados à elaboração da minha monografia e tenho estudado muito para os concursos. Mas não me esqueci de vocês.
recentemente recebi alguns materiais que prometo publicar o quanto antes e aproveito a oportunidade para agradecer aos que os enviaram.
No mais, não deixem de participar, comentar, divulgar e enviar material para o nosso blog. Precisamos manter a nossa categoria unida e informada. Ultimamente, na realização desses concursos públicos, tenho presenciado coisas bizarras que a sociedade pensa da nossa profissão. É um desconhecimento e uma desvalorização total. Lamento muito ter que ver isso tudo.
Atenciosamente,
Viviane G. de Castro
Agora sim, Assistente Social! ;)
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Ajudem-me, por favor! [2]
Olá, pessoal!
Como vocês sabem, a intenção do blog é contribuir para o crescimento da nossa profissão de todas as maneiras possíveis. E, para tanto, criamos a série de posts "Ajudem-me, por favor!"
Infelizmente nós não temos o material que ela pede disponível, então pedimos a quem puder ajudar, que entre em contato conosco através de nosso e-mail (servicosocial.uffcampos@gmail.com) que nós encaminharemos o material que recebermos aos leitores que o solicitaram.Segue abaixo o e-mail que recebemos da Queila Nogueira:
Olá pessoal.
Inicialmente gostaria de parabenizar a iniciativa de vocês em disponibilizar o conhecimento. E em seguida solicitar a ajuda para conseguir alguns textos. Sou recém-formada e estou estudando para residência no HUPE-UERJ. Segue listagem abaixo:
Como vocês sabem, a intenção do blog é contribuir para o crescimento da nossa profissão de todas as maneiras possíveis. E, para tanto, criamos a série de posts "Ajudem-me, por favor!"
Infelizmente nós não temos o material que ela pede disponível, então pedimos a quem puder ajudar, que entre em contato conosco através de nosso e-mail (servicosocial.uffcampos@gmail.com) que nós encaminharemos o material que recebermos aos leitores que o solicitaram.Segue abaixo o e-mail que recebemos da Queila Nogueira:
Olá pessoal.
Inicialmente gostaria de parabenizar a iniciativa de vocês em disponibilizar o conhecimento. E em seguida solicitar a ajuda para conseguir alguns textos. Sou recém-formada e estou estudando para residência no HUPE-UERJ. Segue listagem abaixo:
MIOTO, R.C. Orientações e acompanhamento Social a Indivíduos, grupos e famílias In: CFESS/ABEPSS. Serviço Social: Direitos
PONTES, R N. Mediação e Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1995. ( pp 156 a 186)
IAMAMOTO, M.V. O serviço social na era Contemporânea. CFESS/ABEPSS. Serviço Social: Direitos Sociais e Competências Profissionais. Brasília, CFESS/ABEPSS. 2009 pp.15-50
IAMAMOTO, M.V. A Questão Social no Capitalismo, In: Revista Temporalis. Brasília:CFESS/ABEPSS, Revista Temporalis, Ano 2, Nº 03, 2001.
LOBATO, ALZIRA TEREZA GARCIA. Serviço Social e envelhecimento: perspectivas de trabalho do assistente na área da saúde. In Saúde e Serviço Social e Saúde:. Bravo et al, Cortês Editora. São Paulo.2004
MELO, Ana I. Simões; Almeida, G. Silva. – Interdisciplinaridade: possibilidades e desafios para o trabalho profissional. In: Capacitação em Serviço Social e Política Social: Módulo 4: NED/CEAD – Universidade de Brasília, 2000.
COUTO, B.R. Formulação de Projetos de trabalho Profissional. In: CFESS/ABEPSS. Serviço Social:Direitos Sociais e Competências Profissionais. Brasília, CFESS/ABEPSS. 2009 pp.651-663
BOSCHETTI, I. A Política de Seguridade Social no Brasil. In: CFESS/ABEPSS. Serviço Social: Direitos Sociais e Competências Profissionais. Brasília, CFESS/ABEPSS. 2009 pp.323-338
BEHRING,E.R. Política Social no contexto da Crise Capitalista. In: CFESS/ABEPSS. Serviço Social:Direitos Sociais e Competências Profissionais. Brasília, CFESS/ABEPSS. 2009 pp.301-321
Também aproveito a oportunidade para divulgar o site abaixo, no qual é possível baixar diversos textos do Seso na área de saúde e etc.
Desde já agradeço.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Ajudem-me, por favor! [1]
Olá, pessoal!
Como vocês sabem, a intenção do blog é contribuir para o crescimento da nossa profissão de todas as maneiras possíveis. Sendo assim, quando recebemos um e-mail da nossa amiga Denise Wagner, a fim de ajudá-la, resolvemos publicar o seu apelo aqui. Com esse post, daremos início a "série" Ajudem-me, por favor!
Infelizmente nós não temos o material que ela pede disponível, então pedimos a quem puder ajudar, que entre em contato conosco através de nosso e-mail (servicosocial.uffcampos@gmail.com) que nós encaminharemos a ela o material que recebermos.
Segue abaixo o pedido que ela nos fez:
Boa tarde,
Como vocês sabem, a intenção do blog é contribuir para o crescimento da nossa profissão de todas as maneiras possíveis. Sendo assim, quando recebemos um e-mail da nossa amiga Denise Wagner, a fim de ajudá-la, resolvemos publicar o seu apelo aqui. Com esse post, daremos início a "série" Ajudem-me, por favor!
Infelizmente nós não temos o material que ela pede disponível, então pedimos a quem puder ajudar, que entre em contato conosco através de nosso e-mail (servicosocial.uffcampos@gmail.com) que nós encaminharemos a ela o material que recebermos.
Segue abaixo o pedido que ela nos fez:
Boa tarde,
Estou estudando para a seleção da PUC SS, e preciso de resumos e revistas na área.
Aguardo retorno urgente..
Obrigada
ALAYÓN, Norberto. Política social y el trabajo social. Artigo. Revista textos & Contextos. V. 9, nº 2. Porto Alegre, 2010. Disponível em: www.pucrs.br/textos
BULLA, Leonia Capaverde; KIST, Rosane B. B. O envelhecimento da população e a constituição das políticas sociais para o idoso no Brasil. In: RABASSA, Vini. Política Social: temas em debate. Pelotas: UCEpel, 2009. pp. 179 – 196.
COUTO, Berenice Rojas. O Direito Social e a Assistência Social na Sociedade Brasileira: uma equação possível? 2ª Ed. São Paulo: Cortez, 2006.
DEGENSZAJN, Raquel R. Cidade, questão social e relações internacionais. Revista Temporalis. nº 19, jan./jun. Brasília: ABEPSS, 2010.
IAMAMOTO, Marilda. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. São Paulo: Cortez, 2007.
MONTAÑO, Carlos. A natureza do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007.
PEREIRA, Potyara A. Estado, sociedade e esfera pública. in CFESS/ABEPSS, Direitos sociais e competências profissionais. Brasília, CFESS/ABEPSS, 2009.
YAZBEK, Maria Carmelita. Fundamentos históricos e teórico-metodológicos do Serviço Social. In: CFESS/ABEPSS, Direitos sociais e competências profissionais. Brasília, CFESS/ABEPSS, 2009.
Quem precisar de ajuda do mesmo tipo, também pode entrar em contato conosco.
Gratos desde já e aguardando as contribuições.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
ENADE: o Serviço Social em números. - Uma breve reflexão.
Enviado por Cristiano Costa de Carvalho, assistente social, pós graduado em Serviço Social pela UnB.
Na tarde do dia 19 de novembro, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP, por meio de sua assessoria de imprensa divulgou números de graduandos que estarão realizando no próximo final de semana (21/11), o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes - ENADE referente ao ano de 2010.
Números surpreendentes que abrangem o universo de 650.066 (seiscentos e cinqüenta mil e sessenta e seis) estudantes de graduação da área da saúde que realizará o ENADE no próximo domingo.
Ainda, segundo informações da assessoria de comunicação do INEP, desses acadêmicos, 261.745 são ingressantes e 161.151 são concluintes. Outros 227.170 inscritos são estudantes selecionados para edições anteriores do ENADE.
Os cursos de Enfermagem e Serviço Social ganham destaque, acupando o primeiro e segundo lugar com número de acadêmicos inscritos para realização da referida prova, com 86.856 e 65.359 respectivamente. Veja abaixo quadro elaborado a partir dos dados divulgados pelo INEP:
Agronomia | 18.824 |
Biomedicina | 12.781 |
Educação Física | 33.056 |
Enfermagem | 86.856 |
Farmácia | 35.471 |
Fisioterapia | 38.303 |
Fonoaudiologia | 3.496 |
Medicina | 30.004 |
Medicina Veterinária | 16.684 |
Nutrição | 24.042 |
Odontologia | 20.099 |
Serviço Social | 65.359 |
Tecnologia em Agroindústria | 387 |
Tecnologia em Agronegócio | 2.311 |
Tecnologia em Gestão Ambiental | 18.506 |
Tecnologia em Gestão Hospitalar | 2.975 |
Tecnologia em Radiologia | 5.872 |
Terapia Ocupacional | 2.054 |
Zootecnia | 5.816 |
Acredito que a reflexão sobre estes dados são bastante pertinentes para aqueles que buscam mediações para consolidação e construção de estratégias em torno da efetivação do projeto ético político profissional na sociedade brasileira, pois nunca antes na História do Serviço Social brasileiro vimos um número tão crescente de profissionais assistentes sociais em formação, caracterizando um verdadeiro boom de novos profissionais no início deste novo milênio.
Sabemos da necessidade deste profissional no Brasil, principalmente no contexto sociopolítico, onde as expressões da questão social e a dimensão ética ganham contornos complexos e desafiantes.
Também sabemos das relações contraditórias postas na atualidade em pleno momento em busca de dinamização do capital, a distância entre ricos e pobres, e o crescente número de programas sociais focalizados na pobreza extrema, para redução do índice desta sem preocupação com as mediações necessárias.
Diversos estudos demonstram que aumentou a concentração de riquezas no país nas mãos de uma pequena parcela da população em meio a um complexo contexto de crise, também assistimos a busca de ‘consensos’ entre classes por meio das políticas sociais, assim gerando uma relação contraditória entre trabalho e capital.
Em meio a esta dinâmica, as determinações da economia têm gerado efeitos avassaladores na precarização do trabalho e da condição de classe trabalhadora. Isso tem dificultado a organização destes sujeitos, porém, para rompimento destas determinações impostas, o quadro de ‘crise’ exige uma maior organização desta classe. Neste contexto, de forma contraditória, emerge a crescente demanda de trabalho para assistentes sociais.
Assim, para os assistentes sociais, desvendar as contradições ideológicas e políticas desta conjuntura vem exigindo um complexo aparato que transcenda a mera competência técnica operativa das demandas postas nas políticas sociais, justamente pelo seu caráter de formulador, implementador e executor junto a outros sujeitos, mas que reforce a intencionalidade ético-política e de sua relação com a competência teórico-metodológica na posição de profissão atrelada aos mecanismos legais de justiça social.
Sobre o expressivo avanço do número de assistentes sociais (em formação) faz necessário retomar as reflexões já tecidas pela Profª. Marilda Vilela Iamamoto, na oportunidade do XIII CBAS que aconteceu neste ano em Brasília, em que faz um amplo balanço das experiências inovadoras dos assistentes sociais brasileiros, no entanto, ressalta que na atual conjuntura, há um processo de massificação na formação universitária (dado o aumento acelerado de cursos, especialmente à distância, contribuindo para a criação de um “exército assistencial de reserva”, a ser chamado ao voluntariado diante da criminalização da pobreza).
Iamamoto ressalta que este processo vem se consolidando de forma graduada, massiva e decorrente da expansão acelerada da educação superior como “negócio” do capital, com perda crescente de qualidade e com “graves implicações na vida dos segmentos de classe atendidos pelo assistente social e na defesa de seus direitos”.
Para Iamamoto, o assistente social precisa compreender essa realidade para que proposições sejam feitas. O projeto profissional do Serviço Social lhe oferece a possibilidade de projetar com liberdade suas intervenções, o que o diferencia de outros profissionais.
Ainda pondera que os assistentes sociais também sofrem a precarização do trabalho (desemprego, trabalhos temporários etc), mas que é urgente decifrar os espaços ocupacionais do Serviço Social para resignificá-los.
Nesses espaços, se dão as competências do profissional, a visibilidade do que ocorre na cena pública e a garantia do acesso aos direitos sociais. Iamamoto acentua três tendências atuais que caracterizam desafios de superação (contradições) neste momento para o trabalho do assistente social:
v responsabilização da família pelo nível de pobreza (individualização) – os assistentes sociais muitas vezes são chamados a afirmar isso, ao lidarem com critérios de condicionalidade para acesso e permanência nas Políticas Públicas, sobretudo àquelas que se referem à transferência de renda;
v moralização da questão social – escamoteia a realidade e subjetiva as necessidades (voluntarismo);
v assistencialização da pobreza estrutural junto as classes;
Estas reflexões implicam uma análise crítica entorno dos dados apresentados pelo INEP, cabe lembrar que se trata apenas uma pequena “amostra” de 65.359 acadêmicos de Serviço Social que estarão realizando a prova do ENADE neste domingo.
Nos cabe perguntar: qual será o número real de acadêmicos de Serviço Social Brasil? O que este ‘boom’ pode impactar na defesa dos princípios e no projeto ético político da profissão junto ao nosso compromisso com a sociedade brasileira? Como esta sendo a qualidade do ensino ofertado nas instituições de ensino superior?
Sabemos que diante as insuficiências do ENADE, estas repostas não possibilitará conhecer a significação histórica do processo de formação profissional e dos desafios que temos no cotidiano, sabemos que nos compete fazer as mediações com a complexidade universal constitutiva das relações sociais, no sentido de compreender o fenômeno em sua essência, ou seja, em seus condicionamentos estruturais, recompondo-os em seus aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais.
Neste contexto, endosso a premissa defendida pelas nossas entidades representativas, a saber, o Conselho Federal de Serviço Social – CFESS, no âmbito do exercício profissional; da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS, no âmbito de fundamentação da formação; e da Executiva Nacional dos Estudantes de Serviço Social – ENESSO, para formação de novos sujeitos engajados nestas perspectivas.
Ao exercício profissional temos a responsabilidade de aguçar a crítica aos fundamentos em que se baseiam a atual conjuntura e as políticas públicas para preservar a autonomia profissional, fazer aproximações sucessivas desta, atingir um modo cada vez mais claro e verdadeiro de compreensão do real em sua totalidade, sob uma perspectiva crítica e transformadora, que situa o indivíduo social enquanto sujeito histórico, que faz história, mas não nas condições por ele desejadas. Do contrário, corre-se o risco de se desgastar o vínculo com os movimentos sociais, com a possibilidade de transformação social e tudo se transformar em um enorme vazio.
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010
A relação entre a reestruturação do mercado de trabalho e o Serviço Social
Viviane Gonçalves de Castro, aluna do 8º período de Serviço Social da UFF-Campos dos Goytacazes.
INTRODUÇÃO
A crise do capital e o advento do ideário neoliberal como forma de regulamentação da produção, enquanto transformação societária, trás consigo imbricações ao Serviço Social às quais é imperativo responder.
A crise estrutural do capitalismo nas três últimas décadas do século XX e ascensão de um padrão de acumulação flexível refletem numa nova organização do trabalho e das políticas públicas que, com base neoliberal, implica em uma crescente desvalorização dos direitos sociais e também na “privatização de empregos estatais, o enxugamento dos gastos sociais, a reforma da Previdência Social, a flexibilização das relações de trabalho, a refilantropização da assistência social, a institucionalização do voluntariado etc” (SERRA, p. 153) como é no caso do Brasil.
Há que se considerar tais mudanças estruturais para que se possa efetuar a tão apregoada prática profissional comprometida com um discurso ético-político emancipatório, que não seja apenas uma forma de reiterar as já exacerbadas relações de classe. Somente assim será possível evitar a repetição quase mecânica de um discurso inerente à profissão, como se tal discurso pudesse realizar, de forma quase milagrosa, a renovação da prática do serviço social.
1. A REESTRUTURAÇÃO CAPITALISTA E SEUS REFLEXOS NO MERCADO DE TRABALHO
De forma resumida, as características fundamentais de um novo padrão de produção – a acumulação flexível – se dão em três aspectos, conforme nos mostra Serra:
O primeiro deles é que há uma correspondência entre a transformação do processo de produção e as condições de reprodução e socialização da força de trabalho, as políticas de controle e gestão do trabalho e as formas de consumo e de circulação de mercadorias.
O segundo é que há uma alteração do modo de regulamentação expresso por meio de normas (...) que dão sustentação ao processo de implantação do novo padrão de produção.
(...) O terceiro aspecto é que a linha mestra desse processo de mudança é político-ideológico, configurada no neoliberalismo como doutrina que dá unidade política e define as estratégias para a implantação do novo padrão produtivo. (p. 153)
O segundo é que há uma alteração do modo de regulamentação expresso por meio de normas (...) que dão sustentação ao processo de implantação do novo padrão de produção.
(...) O terceiro aspecto é que a linha mestra desse processo de mudança é político-ideológico, configurada no neoliberalismo como doutrina que dá unidade política e define as estratégias para a implantação do novo padrão produtivo. (p. 153)
Expressões notórias desse processo de reestruturação se dão na crescente precarização do mercado de trabalho; no aumento da terceirização no processo de produção, reduzindo o trabalho e o quadro de operários dentro das empresas matrizes, barateado o custo de produção por meio de uma linha de produção horizontal; na compressão espaço-tempo acelerando o tempo de giro da produção; e na valorização de um discurso de participação e colaboração dentro das empresas, o dito endomarketing, como máscara à super extração de mais-valia, preservando dentro da empresa apenas os funcionários multifuncionais, esgotando-lhes também o trabalho abstrato.
Disso resulta uma fragmentação da classe trabalhadora, uma dissolução dos sindicatos, o surgimento do desemprego estrutural, o trabalho terceirizado precário e temporário; ou seja, há uma desregulamentação dos direitos do trabalho à qual se acrescenta o crescimento do trabalho informal, a exigência de um trabalhador polivalente e a ameaça ao trabalhador de tornar-se parte do crescente exército de reserva. Outro fator resultante disso é a crescente absorção desses trabalhadores pelos setores de serviços. No entanto, tal setor do mercado, embora venha crescendo, não será capaz de absorver sozinho tamanho contingente de trabalhadores.
No que tange a relevância de tal reestruturação, Netto (1996) ainda aponta para o fato de que “rápidas e intensas transformações societárias constituem o solo privilegiado para o processamento de alterações profissionais – seja o redimensionamento de profissões já consolidadas, seja o surgimento de novas atividades e ramos profissionais”. Quanto ao que nos diz Netto (lembrando que seu artigo foi produzido num período de discursos inflamados e de novas percepções para a profissão, logo após o Movimento de Reconceituação do Serviço Social e o advento de um projeto ético-político para a categoria), sua previsão se manteve correta e concretiza-se sempre, na medida em que, conforme nos mostra Montaño (2009, p. 194), o Serviço Social tem intrínseca em sua gênese a característica de “não desvendar as problemáticas emergentes na atualidade” e, portanto, necessita irrevogavelmente romper com essa postura.
Ao Serviço Social é necessário desfazer-se do entendimento das “políticas sociais como mero instrumento de redistribuição de renda (...) que visam atingir o equilíbrio social afetado e alterado pela dinâmica do mercado” (Montaño, 2009), o que acaba por gessar a sua ação profissional além de naturalizar as “áreas tradicionais de intervenção”, impedindo que se incorporem novas demandas sociais ao leque de “especificações profissionais”.
Como via de superação a essa postura onde se perpetuam a lógica e as demandas “tradicionais” da profissão, o Serviço Social precisa abrir-se a novos espaços profissionais, detectando novas demandas, suas raízes e seus processos por meio da pesquisa. É através das respostas dadas às necessidades emergentes e às demandas sociais que se legitimam as profissões. Sendo assim, as mudanças ocasionadas pela acumulação flexível na lógica do trabalho e, conseqüentemente, em todas as esferas da sociedade, refletem na alteração das demandas já existentes e no surgimento de outras tanta demandas. Para que não se perca a sua legitimidade, o Serviço Social deve apreender as novas demandas e capacitar-se para dar-lhes as devidas respostas. Fazendo uso da pesquisa, do conhecer a realidade sem fragmentá-la, mas ligando-a aos ideários por detrás da mesma, cabe aos profissionais do Serviço Social o desenvolvimento de estudos reflexivos que abram caminho para que se alcancem as respostas necessárias e cabíveis, a fim de não se aplicar “soluções pré-moldadas” às questões imanentes ao movimento histórico da realidade.
2. O MERCADO DE TRABALHO REESTRUTURADO E SUAS IMPLICAÇÕES PARA O ASSISTENTE SOCIAL
Como já dissemos, a reestruturação produtiva tem seus reflexos nos vários âmbitos da sociedade e do mercado de trabalho; e essa influência resvala também nos campos de trabalho onde o assistente social exerce sua profissão.
A precarização crescente e ininterrupta das condições de trabalho se mostra não apenas como uma demanda a ser avaliada e respondida, mas assola também a categoria profissional e a submete a condições que desvalorizam o intelectual da área de forma avassaladora.
Fazendo uso dos dados obtidos na pesquisa “Serviço Social e Segurança Pública: novos espaços e novas configurações profissionais” realizada junto ao Programa Delegacia Legal, instaurado no estado do Rio de Janeiro, Marconsin e Forti ressaltam as condições (ou a falta delas) em que o assistente social se vê forçado a exercer o Serviço Social.
A pesquisa mostra a absorção do Estado do ideário neoliberal de terceirização e prestação de serviços, reduzindo o quadro de funcionários públicos. O Estado já não é mais aquele que mais emprega assistentes sociais. Ao contrário, como bem exemplifica o caso das Delegacias Legais, o assistente social - bem como outros profissionais de nível superior como o psicólogo, por exemplo – acaba por tornar-se um prestador de serviços, um plantonista, que tem, dentre as suas obrigações, de exercer o trabalho cabível a outros profissionais, agindo até mesmo como um recepcionista. Tem-se aí mais uma característica neoliberal de redução de custos: o profissional polivalente.
Tal polivalência implica também na sobrecarga profissional, o que resulta num trato absolutamente falho da questão social, já que tal forma de organização tolhe a autonomia profissional tão apregoada em nosso discurso ético-político.
Outra característica notada e registrada em pesquisa é a compressão espaço-tempo também do trabalho do assistente social: observou-se a crescente redução da carga horária do assistente social dentro das instituições, o que resulta também em um reducionismo salarial sentido por toda a categoria que acaba por ser levada a procurar exercer o Serviço Social em diversos lugares ao mesmo tempo, em busca de obter uma renda maior. Esse tipo de ação fragmenta o trabalho do assistente social e as políticas públicas de forma a aumentar a rotatividade de funcionários dentro da instituição, impelindo uma descontinuidade do trabalho do assistente social e uma desconstrução dos resultados outrora obtidos.
Há também a crescente busca pelo Estado Mínimo, delegando funções que devem ser exercidas pelo Estado à sociedade civil, por meio de organizações não-governamentais (ONG’s) e de ações sociais de empresas privadas. Com vistas a isso, fragmenta-se ainda mais o trabalho dos assistentes sociais que acabam por tornar-se “criadores/implantadores” de projetos para essas instituições. Os direitos sociais que, por lei, deveriam ser garantidos pelo Estado passam a ser concedidos como favor por essas organizações, reificando a prática assistencialista subalternizante com a qual a categoria tanto tem tentado romper. Instaura-se aí o voluntariado imanente ao neoliberalismo, com o reducionismo cada vez mais aguçado das políticas públicas, que tendem a tornar-se mais e mais focalistas com o passar do tempo.
Mesmo a Carta Magna de 1988, embora tenha sido uma conquista no que tange ao fato de ter dado caráter (ao menos no nome) de política pública à assistência social, já trás em si um caráter excludente quando afirma que a assistência social será prestada a quem dela necessitar, destacando os grupos: idosos, crianças e deficientes, entendidos como parcela da população possivelmente incapaz de prover sua própria subsistência. Com o advento da acumulação flexível e do neoliberalismo, o que se observa é: 1) com a reestruturação do mercado de trabalho há o crescente desemprego estrutural, além do crescimento do índice de trabalho informal; 2) com o aumento de desemprego, aumenta-se a parcela da população em situação de pobreza; 3) com o aumento da pobreza, aumenta-se a população usuária dos serviços sociais o que por sua vez obriga o Estado a ou ampliar-se e, com isso ampliar também suas políticas voltadas ao trato da questão social ou fechar-se ainda mais. Ou seja, ou o Estado reformula-se com vistas a cumprir o papel de regulador social, criando políticas que realmente respondam às demandas sociais e que se configurem como vias de acesso à cidadania; ou o Estado delega tal função à sociedade civil, intervindo de forma mínima na organização do trabalho, focalizando cada vez mais as políticas públicas e de assistência no sentido de que, se antes o público-alvo de um determinado programa era àquele que vivia em situação de pobreza, agora o serão aqueles que subsistem em situação de miserabilidade. É o que se observa no Brasil de hoje, conforme aponta Iamamoto (2007). Não interessa ao Estado neoliberal ampliar-se.
Desta feita, eis aí um dos antagonismos que hoje acompanham a profissão: se hoje é devido à reestruturação do modo de produção que se observa a emergência e a reformulação de demandas às quais o Serviço Social deve aperceber-se e dar as respostas cabíveis, é também a reestruturação do mercado de trabalho que impõe limites claros - porém jamais intransponíveis – ao trato dessas mesmas demandas como sendo manifestações da questão social resultante de um sistema de acumulação e exploração de classes cada vez mais estruturado.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Serviço Social deve aproximar-se ainda mais da realidade na qual atua, produzindo conhecimento sobre a mesma, mas sem esquecer-se de que o neoliberalismo também traz uma cultura neoliberal e não é só uma forma de organização político-econômica. Tal cultura está também impregnada nos próprios assistentes sociais, já que estes não estão fora da realidade em que atuam, mas também fazem parte dela.
Sem a pretensão de esgotar o debate, considero que apenas a produção de conhecimento não é o bastante para que se possa romper com os limites impostos à profissão pela lógica da acumulação, mas é o primeiro passo e deverá ser acompanhado de uma prática condizente com tal conhecimento produzido. O discurso sem a prática é algo vazio, e pode tornar-se um discurso fatalista e messiânico; bem como a prática sem o discurso que lhe norteia, será um agir sem pensar que só servirá para a legitimação da lógica já posta, com a supervalorização dos lucros, não importando a que preço.
4. BIBLIOGRAFIA
BRASIL, Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brsasília: Senado Federal, 2005.
IAMAMOTO, Marilda Villela. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação. 11.ed. – São Paulo, Cortez, 2007, p.160-163.
MARCONSIN, Cleir, FORTI, Valéria L.Em tempos neoliberais, o trabalho dos assistentes sociais em cena. In: SERRA, Rose (org).Trabalho e reprodução: enfoques e abordagens. São Paulo: Cortez; Rio de Janeiro: PETRES- FSS/UERJ, 2001, p. 207-223.
MONTANO, Carlos. A natureza do serviço social: um ensaio sobre sua gênese, a especificidade e sua reprodução. São Paulo: Cortez, 2009, p.194 – 217.
NETTO, José Paulo. Transformações Societárias e Serviço Social. In: Serviço Social e Sociedade, São Paulo, Editora Cortez, 1996, p.87 –131.
SERRA, Rose Alterações no mundo do trabalho e repercussões no mercado profissional do serviço social. In: SERRA, Rose (org).Trabalho e reprodução: enfoques e abordagens. São Paulo: Cortez; Rio de Janeiro: PETRES- FSS/UERJ, 2001, p. 151-175
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segunda-feira, 22 de junho de 2009
Mediações....Para quê?
Vanessa Vasconcelos Pereira
Para o Serviço Social se tornam expressivas referências às mudanças no mundo do trabalho, ao papel do Estado e à composição e dinâmica das classes sociais enquanto categorias explicativas dos processos macro sociais que afetam e/ou determinam mudanças na experiência profissional do assistente social. Especificamente, esses impactos ocorrem em dois planos: um, mais visível e imediato, relaciona-se com questões que recaem diretamente sobre o exercício profissional; o outro, mais amplo e complexo, refere-se tanto ao surgimento de novas problemáticas que podem ser mobilizadoras de competências profissionais estratégicas, como à elaboração de proposições teóricas. políticas,éticas e técnicas que possam se apresentar como respostas qualificadas ao enfrentamento das questões que lhe são postas.
Cabe ao Serviço Social, refazer téorica e metodologicamente o caminho entre a demanda e as suas necessidades fundantes, situando-as na sociedade capitalista contemporânea, com toda sua complexidade.
“a profissão de Serviço Social, como tantas outras é determinada socialmente a partir da relação entre divisão social do trabalho e atendimento de necessidades sociais” (MOTTA,p.27,1987)
Assim, as profissões se criam a partir de necessidades sociais e se desenvolvem na medida da sua utilidade social, vindo a institucionalizar práticas profissionais reconhecidas socialmente. Devem ser capazes de problematizar as demandas para apreender o conjunto de mediações que expressam a vinculação entre as “reais necessidades” e as exigências do mercado de trabalho profissional é o passo inicial para a construção dos objetos e objetivos estratégicos da ação profissional. Uma vez que se ater às demandas do mercado de trabalho profissional postas pela reestruturação produtiva é esquecer que:
“as necessidades sociais referidas às demandas são mera aparência que não expressam as necessidades sociais reais da classe trabalhadora, e inclusive as transfigura em seu conteúdo.”(MOTTA,p.35, 1999 apud HELLER,p.82,1987)
Para a apreensão das reais necessidades, se faz necessário que haja uma relação entre teoria e prática. Teoria e prática constituem aspectos inseparáveis do processo de conhecimento e devem ser consideradas na sua unidade, levando em conta que a teoria não só se nutre na prática profissional e histórica como também representa uma força transformadora que indica à prática os caminhos da transformação.
São indissociáveis, uma vez que a prática é o fundamento da teoria, ou seja, o ponto de partida e a base principal e substancial do conhecimento. O próprio conhecimento se desenvolve com base na prática, pois o conhecimento e as ciências surgem e se desenvolvem devido às necessidades da prática, às necessidades da vida. Na prática colocam-se à prova os conceitos e as teorias, estabelecem-se a sua veracidade ou falsidade, precisam-se e sistematizam-se os conhecimentos. Não se poder ter uma prática profissional fundamentada só na prática,uma vez que:
“ As ideias necessárias à cotidianidade jamais se elevam ao plano da teoria, do mesmo modo como a atividade cotidiana não é práxis [...]na cotidianidade a atividade individual não é mais do que uma parte da práxis, da ação total da humanidade que, construindo a partir de uma dado, produz algo novo, sem com isso transformar em novo o já dado.” (HELLER.p.32,1985)
A vida cotidiana se desenvolve em meio a muitas e variadas atividades econômicas,políticas, sociais e culturais; são essas atividades que preenchem grande parte dos seus interesses e preocupações. Essa é a nossa realidade imediata, nela os trabalhadores vivem situações,problemas e necessidades, sempre situadas em um contexto econômico, político, ideológico e histórico mais amplo.
Estas necessidades, situações e tarefas que surgem da realidade imediata e da realidade nacional não estão separadas entre si. O trabalho, a vida cotidiana, a conjuntura nacional, a situação estrutural de nossa sociedade, formam um todo articulado.
“Longe da tradição positivista, uma ação profissionalreconstrói metodologicamente o caminho entre a demanda objetivada e as relações que a determinam. É este movimento que garante, na particularidade de cada ação profissional, a reconstrução dos seus objetos de intervenção e das suas estratégias de ação...até chegar aos ponto de partida, mas desta vez não como uma representação caótica do todo, porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas.”(Mota,p.48,1999)
O assistente social, ao aperceber-se da existência desses vínculos, de suas relações e contradições, enfim, desses imbricamentos, pode desenvolver a sua ação profissional de modo mais crítico na medida em que supera a leitura do aparente imediato e dá conta da totalidade:
“essencialmente processual, dinâmica, cujos complexos, em interação mútua, possuem um imanente movimento. No limite, esse movimento produz uma dada legalidade social, historicamente determinada e determinante. Atua na particularização das relações entre os vários complexos do ser social.” (PONTES,p.81,2007)
Para se conhecer essa totalidade se faz necessário partir da prática, teorizar sobre ela e voltar à prática pára transformá-la, ou seja, partir do concreto, realizar um processo de abstração, entendida como “ a capacidade que a razão humana tem de ultrapassar a imediaticidade, captando as conexões submersas na imediaticidade do real”(PONTES,p.69,2007) e regressar ao concreto para transformá-lo, esse é o processo dialético do conhecimento. Este processo que vai da prática à teoria, é certamente, muito mais complexo que “fazer uma reflexão sobre uma ação ou situação”. Implica exercitar e desenvolver distintas capacidades intelectuais.
A compreensão teórica deve verificar-se novamente na prática para confirmar sua validade e sua verdade. O conhecimento não retorna, entretanto, a sua antiga forma de percepção de situações isoladas, mas enriquecido com uma capacidade de interpretação mais rica e valiosa destes mesmos. Compreender as contradições nos permitirá regressar a nossa realidade imediata com elementos de orientação sobre o que fazer para resolvê-las, estes elementos nos permitirão definir uma prática transformadora.
“ o agente social ao entranhar-se com suas ações sociais no cerne das relações dar-lhes uma direção de forma crítica e alienada. Ao imprimir uma direção alienante tende a mistificá-las e homogeneizá-las, caracterizando-as de forma fetichizada e aparente, que em síntese, é também uma forma de desapropriação do real crítico.”
(OLIVEIRA,p.82,1988)
O desvelamento do significado real dos serviços prestados e não significado fetichizado pelos interesses do capital, apresenta-se como importante campo de luta para os trabalhadores em geral e para os assistentes sociais em particular dada a sua inserção neste terreno. É necessário “desvelar e decifrar o movimento histórico-social contemporâneo da ordem burguesa; sua estrutura, sua dinâmica, suas tendências; o que importa é empenhar a razão teórica como iluminadora dos processos constituintes desta socialidade determinada.”(NETTO, p.33,2001). A compreensão dos processos e complexos inerentes a essa ordem pressupõe a penetração em categorias sociais cada vez mais complexas.
Aqui se localiza o desafio central para o assistente social, que é o de fazer a crítica dos fundamentos da cotidianidade tanto daquela em que ele se encontra inserido quanto a do cotidiano dos sujeitos sociais a quem presta serviços, o que significa examinar os fundamentos, analisá-los, reconhecê-los, para transcendê-los. O profissional consegue transcender quando se apodera da categoria mediação, que “dá a visibilidade panorâmica do sentido da palavra dialética, porque deixa transparentes as articulações categoriais do 'núcleo': a totalidade,a negatividade, e a mediação se imbricam num todo complexo,lógico e coerente.”(PONTES, p.56,2007)
Cabe ressaltar que o assistente social não é um “mediador”, não realiza mediações, uma vez que “a categoria de mediação não é uma estrutura nascida nas 'maquinagens do intelecto', mas de fato,[...] ela é componente estrutural do ser social.”(PONTES,p.77,2007). Não cabe ao assistente social “criar” mediações, uma vez que elas são expressões históricas das relações que o homem edificou com a natureza e consequentemente das relações sociais daí decorrentes, nas várias formações sócio-humanas que a história registrou.
“Não pode existir nem na natureza, nem na sociedade nenhum objeto que neste sentido[...]não seja mediato,não seja resultado de mediações. Deste ponto de vista a mediação é uma categoria objetiva, ontológica, que tem que estar presente em qualquer realidade, independente do sujeito.”(PONTES,p.79,2007,apud LÚKACS,1979)
O recurso à categoria de mediações foi presidido pela pressão das demandas postas pela realidade à profissão, que forçaram a necessidade de um amadurecimento teórico para levar a cabo a tarefa de avanço profissional, provocada pelos impulsos da própria realidade. A mediação permite à razão construir categorias para auxiliar a compreensão e ações profissionais e supera a dicotomia entre teoria e prática, uma vez que se processam mediações entre teoria e prática e vice-versa.
A mediação é o que diferencia um exercício profissional crítico das práticas assistenciais, voluntaristas, desenvolvidas por leigos e por ações voluntárias. Para a superação da confusão acerca da imagem social com a ação prestada por leigos de “boa vontade”, deve-se fazer a crítica ontológica do cotidiano, de modo que possamos tornar nossa prática profissional consciente.
“Ao clarificar seus objetivos sociais,[...]compreender o significado real da profissão no contexto da sociedade capitalista, escolher crítica e adequadamente os meios éticos para o alcance de fins éticos, orientados por um projeto profissional crítico, os assistentes sociais estão aptos, em termos de responsabilidade, a realizar uma intervenção profissional de qualidade, competência e compromisso indiscutíveis.”(GUERRA,p.15,2007)
O assistente social deve perceber a realidade como totalidade, de modo a perseguir suas mediações, apanhar as contradições do real não como vício do pensamento, mas como possibilidades inerentes à própria realidade pelas quais o profissional poderá fazer a leitura da realidade e em tais contradições captar as possibilidades de intervenção e as perspectivas de seu enfrentamento. Assim, sua prática profissional passa a se diferenciar da prática de leigos, posto que não se reduz a atividades burocrático-administrativas, já que o projeto lhe permite ter clareza da sua intencionalidade, decifrando o significado das demandas, captando a necessidade que subjaz a elas.
“a competência ultrapassa saberes e conhecimentos mas não se constitui sem eles. É necessário que hajauma intervenção reflexiva e eficaz, no sentido de articular dinâmicas de conhecimentos, saberes, habilidades, valores e posturas. Mas ela é uma concepção fundamentalmente inclusiva, relacional e determinada social e historicamente.”(GUERRA,p.28,2007)
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
FERNANDES, Idília.”A dialética das possibilidades:a face interventiva do Serviço Social.”Revista Virtual Textos & Contextos.n.4, dez.2005
GUERRA,Yolanda. “O projeto profissional crítico:estratégia de enfrentamento das condições contemporâneas da prática profissional.”Serviço Social & Sociedade. São Paulo: Cortez,n.91.set.2007
HELLER,Agnes. “Teoria de las necesidades em Marx.” Ed. Península, Barcelona.1987.
JARA,Oscar. “Como conhecer a realidade para transformá-la?”CEPIS,São Paulo.1986.
KAMEYMA, Nobuco. “Metodologia:uma questão em questão.”Cadernos ABESS,n.3. São Paulo, 1988
MOTA,Ana Elisabete. “Reestruturação produtiva e Serviço Social.” Revista Praia Vermelha. vol.1,n.2. Rio de Janeiro, UFRJ, 1° Sem. De 1999.
NETTO,José Paulo. “O Movimento de Reconceituação 40 anos depois.” Serviço Social & Sociedade .n.84. São Paulo, Cortez,2005
_________________ “O serviço social e a tradição marxista.” Serviço Social & Sociedade .n.30. São Paulo, Cortez,1989
_________________ “Crise do socialismo e ofensiva liberal.” 3.ed. São Paulo, Cortez,2001
OLIVEIRA, Raimunda Nonato Cruz. “A mediação na prática profissional do assistente social” Serviço Social & Sociedade .n26. São Paulo, Cortez,1988
PONTES,Reinaldo Nobre. “Mediação e serviço social:um estudo preliminar sobre a categoria teórica e sua apropriação pelo serviço social.”4.ed. São Paulo: Cortez, 2007
______________________ “Mediação: Categoria fundamental para o trabalho do assistente social.”
Capacitação em Serviço Social e Política Social. Brasília, Unb,CFESS.2000
Para o Serviço Social se tornam expressivas referências às mudanças no mundo do trabalho, ao papel do Estado e à composição e dinâmica das classes sociais enquanto categorias explicativas dos processos macro sociais que afetam e/ou determinam mudanças na experiência profissional do assistente social. Especificamente, esses impactos ocorrem em dois planos: um, mais visível e imediato, relaciona-se com questões que recaem diretamente sobre o exercício profissional; o outro, mais amplo e complexo, refere-se tanto ao surgimento de novas problemáticas que podem ser mobilizadoras de competências profissionais estratégicas, como à elaboração de proposições teóricas. políticas,éticas e técnicas que possam se apresentar como respostas qualificadas ao enfrentamento das questões que lhe são postas.
Cabe ao Serviço Social, refazer téorica e metodologicamente o caminho entre a demanda e as suas necessidades fundantes, situando-as na sociedade capitalista contemporânea, com toda sua complexidade.
“a profissão de Serviço Social, como tantas outras é determinada socialmente a partir da relação entre divisão social do trabalho e atendimento de necessidades sociais” (MOTTA,p.27,1987)
Assim, as profissões se criam a partir de necessidades sociais e se desenvolvem na medida da sua utilidade social, vindo a institucionalizar práticas profissionais reconhecidas socialmente. Devem ser capazes de problematizar as demandas para apreender o conjunto de mediações que expressam a vinculação entre as “reais necessidades” e as exigências do mercado de trabalho profissional é o passo inicial para a construção dos objetos e objetivos estratégicos da ação profissional. Uma vez que se ater às demandas do mercado de trabalho profissional postas pela reestruturação produtiva é esquecer que:
“as necessidades sociais referidas às demandas são mera aparência que não expressam as necessidades sociais reais da classe trabalhadora, e inclusive as transfigura em seu conteúdo.”(MOTTA,p.35, 1999 apud HELLER,p.82,1987)
Para a apreensão das reais necessidades, se faz necessário que haja uma relação entre teoria e prática. Teoria e prática constituem aspectos inseparáveis do processo de conhecimento e devem ser consideradas na sua unidade, levando em conta que a teoria não só se nutre na prática profissional e histórica como também representa uma força transformadora que indica à prática os caminhos da transformação.
São indissociáveis, uma vez que a prática é o fundamento da teoria, ou seja, o ponto de partida e a base principal e substancial do conhecimento. O próprio conhecimento se desenvolve com base na prática, pois o conhecimento e as ciências surgem e se desenvolvem devido às necessidades da prática, às necessidades da vida. Na prática colocam-se à prova os conceitos e as teorias, estabelecem-se a sua veracidade ou falsidade, precisam-se e sistematizam-se os conhecimentos. Não se poder ter uma prática profissional fundamentada só na prática,uma vez que:
“ As ideias necessárias à cotidianidade jamais se elevam ao plano da teoria, do mesmo modo como a atividade cotidiana não é práxis [...]na cotidianidade a atividade individual não é mais do que uma parte da práxis, da ação total da humanidade que, construindo a partir de uma dado, produz algo novo, sem com isso transformar em novo o já dado.” (HELLER.p.32,1985)
A vida cotidiana se desenvolve em meio a muitas e variadas atividades econômicas,políticas, sociais e culturais; são essas atividades que preenchem grande parte dos seus interesses e preocupações. Essa é a nossa realidade imediata, nela os trabalhadores vivem situações,problemas e necessidades, sempre situadas em um contexto econômico, político, ideológico e histórico mais amplo.
Estas necessidades, situações e tarefas que surgem da realidade imediata e da realidade nacional não estão separadas entre si. O trabalho, a vida cotidiana, a conjuntura nacional, a situação estrutural de nossa sociedade, formam um todo articulado.
“Longe da tradição positivista, uma ação profissionalreconstrói metodologicamente o caminho entre a demanda objetivada e as relações que a determinam. É este movimento que garante, na particularidade de cada ação profissional, a reconstrução dos seus objetos de intervenção e das suas estratégias de ação...até chegar aos ponto de partida, mas desta vez não como uma representação caótica do todo, porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas.”(Mota,p.48,1999)
O assistente social, ao aperceber-se da existência desses vínculos, de suas relações e contradições, enfim, desses imbricamentos, pode desenvolver a sua ação profissional de modo mais crítico na medida em que supera a leitura do aparente imediato e dá conta da totalidade:
“essencialmente processual, dinâmica, cujos complexos, em interação mútua, possuem um imanente movimento. No limite, esse movimento produz uma dada legalidade social, historicamente determinada e determinante. Atua na particularização das relações entre os vários complexos do ser social.” (PONTES,p.81,2007)
Para se conhecer essa totalidade se faz necessário partir da prática, teorizar sobre ela e voltar à prática pára transformá-la, ou seja, partir do concreto, realizar um processo de abstração, entendida como “ a capacidade que a razão humana tem de ultrapassar a imediaticidade, captando as conexões submersas na imediaticidade do real”(PONTES,p.69,2007) e regressar ao concreto para transformá-lo, esse é o processo dialético do conhecimento. Este processo que vai da prática à teoria, é certamente, muito mais complexo que “fazer uma reflexão sobre uma ação ou situação”. Implica exercitar e desenvolver distintas capacidades intelectuais.
A compreensão teórica deve verificar-se novamente na prática para confirmar sua validade e sua verdade. O conhecimento não retorna, entretanto, a sua antiga forma de percepção de situações isoladas, mas enriquecido com uma capacidade de interpretação mais rica e valiosa destes mesmos. Compreender as contradições nos permitirá regressar a nossa realidade imediata com elementos de orientação sobre o que fazer para resolvê-las, estes elementos nos permitirão definir uma prática transformadora.
“ o agente social ao entranhar-se com suas ações sociais no cerne das relações dar-lhes uma direção de forma crítica e alienada. Ao imprimir uma direção alienante tende a mistificá-las e homogeneizá-las, caracterizando-as de forma fetichizada e aparente, que em síntese, é também uma forma de desapropriação do real crítico.”
(OLIVEIRA,p.82,1988)
O desvelamento do significado real dos serviços prestados e não significado fetichizado pelos interesses do capital, apresenta-se como importante campo de luta para os trabalhadores em geral e para os assistentes sociais em particular dada a sua inserção neste terreno. É necessário “desvelar e decifrar o movimento histórico-social contemporâneo da ordem burguesa; sua estrutura, sua dinâmica, suas tendências; o que importa é empenhar a razão teórica como iluminadora dos processos constituintes desta socialidade determinada.”(NETTO, p.33,2001). A compreensão dos processos e complexos inerentes a essa ordem pressupõe a penetração em categorias sociais cada vez mais complexas.
Aqui se localiza o desafio central para o assistente social, que é o de fazer a crítica dos fundamentos da cotidianidade tanto daquela em que ele se encontra inserido quanto a do cotidiano dos sujeitos sociais a quem presta serviços, o que significa examinar os fundamentos, analisá-los, reconhecê-los, para transcendê-los. O profissional consegue transcender quando se apodera da categoria mediação, que “dá a visibilidade panorâmica do sentido da palavra dialética, porque deixa transparentes as articulações categoriais do 'núcleo': a totalidade,a negatividade, e a mediação se imbricam num todo complexo,lógico e coerente.”(PONTES, p.56,2007)
Cabe ressaltar que o assistente social não é um “mediador”, não realiza mediações, uma vez que “a categoria de mediação não é uma estrutura nascida nas 'maquinagens do intelecto', mas de fato,[...] ela é componente estrutural do ser social.”(PONTES,p.77,2007). Não cabe ao assistente social “criar” mediações, uma vez que elas são expressões históricas das relações que o homem edificou com a natureza e consequentemente das relações sociais daí decorrentes, nas várias formações sócio-humanas que a história registrou.
“Não pode existir nem na natureza, nem na sociedade nenhum objeto que neste sentido[...]não seja mediato,não seja resultado de mediações. Deste ponto de vista a mediação é uma categoria objetiva, ontológica, que tem que estar presente em qualquer realidade, independente do sujeito.”(PONTES,p.79,2007,apud LÚKACS,1979)
O recurso à categoria de mediações foi presidido pela pressão das demandas postas pela realidade à profissão, que forçaram a necessidade de um amadurecimento teórico para levar a cabo a tarefa de avanço profissional, provocada pelos impulsos da própria realidade. A mediação permite à razão construir categorias para auxiliar a compreensão e ações profissionais e supera a dicotomia entre teoria e prática, uma vez que se processam mediações entre teoria e prática e vice-versa.
A mediação é o que diferencia um exercício profissional crítico das práticas assistenciais, voluntaristas, desenvolvidas por leigos e por ações voluntárias. Para a superação da confusão acerca da imagem social com a ação prestada por leigos de “boa vontade”, deve-se fazer a crítica ontológica do cotidiano, de modo que possamos tornar nossa prática profissional consciente.
“Ao clarificar seus objetivos sociais,[...]compreender o significado real da profissão no contexto da sociedade capitalista, escolher crítica e adequadamente os meios éticos para o alcance de fins éticos, orientados por um projeto profissional crítico, os assistentes sociais estão aptos, em termos de responsabilidade, a realizar uma intervenção profissional de qualidade, competência e compromisso indiscutíveis.”(GUERRA,p.15,2007)
O assistente social deve perceber a realidade como totalidade, de modo a perseguir suas mediações, apanhar as contradições do real não como vício do pensamento, mas como possibilidades inerentes à própria realidade pelas quais o profissional poderá fazer a leitura da realidade e em tais contradições captar as possibilidades de intervenção e as perspectivas de seu enfrentamento. Assim, sua prática profissional passa a se diferenciar da prática de leigos, posto que não se reduz a atividades burocrático-administrativas, já que o projeto lhe permite ter clareza da sua intencionalidade, decifrando o significado das demandas, captando a necessidade que subjaz a elas.
“a competência ultrapassa saberes e conhecimentos mas não se constitui sem eles. É necessário que hajauma intervenção reflexiva e eficaz, no sentido de articular dinâmicas de conhecimentos, saberes, habilidades, valores e posturas. Mas ela é uma concepção fundamentalmente inclusiva, relacional e determinada social e historicamente.”(GUERRA,p.28,2007)
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
FERNANDES, Idília.”A dialética das possibilidades:a face interventiva do Serviço Social.”Revista Virtual Textos & Contextos.n.4, dez.2005
GUERRA,Yolanda. “O projeto profissional crítico:estratégia de enfrentamento das condições contemporâneas da prática profissional.”Serviço Social & Sociedade. São Paulo: Cortez,n.91.set.2007
HELLER,Agnes. “Teoria de las necesidades em Marx.” Ed. Península, Barcelona.1987.
JARA,Oscar. “Como conhecer a realidade para transformá-la?”CEPIS,São Paulo.1986.
KAMEYMA, Nobuco. “Metodologia:uma questão em questão.”Cadernos ABESS,n.3. São Paulo, 1988
MOTA,Ana Elisabete. “Reestruturação produtiva e Serviço Social.” Revista Praia Vermelha. vol.1,n.2. Rio de Janeiro, UFRJ, 1° Sem. De 1999.
NETTO,José Paulo. “O Movimento de Reconceituação 40 anos depois.” Serviço Social & Sociedade .n.84. São Paulo, Cortez,2005
_________________ “O serviço social e a tradição marxista.” Serviço Social & Sociedade .n.30. São Paulo, Cortez,1989
_________________ “Crise do socialismo e ofensiva liberal.” 3.ed. São Paulo, Cortez,2001
OLIVEIRA, Raimunda Nonato Cruz. “A mediação na prática profissional do assistente social” Serviço Social & Sociedade .n26. São Paulo, Cortez,1988
PONTES,Reinaldo Nobre. “Mediação e serviço social:um estudo preliminar sobre a categoria teórica e sua apropriação pelo serviço social.”4.ed. São Paulo: Cortez, 2007
______________________ “Mediação: Categoria fundamental para o trabalho do assistente social.”
Capacitação em Serviço Social e Política Social. Brasília, Unb,CFESS.2000
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Trabalho e Serviço Social
Vanessa Vasconcelos Pereira
Devido a mudanças ocorridas no mundo do trabalho, mudanças essas que interferem diretamente nas demandas impostas ao Serviço Social, há a necessidade de se conhecer essa categoria que:
“...além de indispensável para a compreensão da atividade econômica, faz referência ao próprio modo de ser dos homens e da sociedade.”(NETTO e BRAZ, 2007,p.29)
As condições de existência e reprodução da sociedade se obtém numa interação com a natureza: a sociedade, através dos seus membros, transforma matérias naturais em produtos que atendem às suas necessidades. Essa transformação é realizada em virtude do trabalho. Para tanto, o homem se vale da objetivação, que transforma a finalidade previamente construída na consciência em um produto objetivo. O que era apenas uma idéia se transforma em um novo objeto, anteriormente inexistente, o qual possui história própria. É a mediação que articula a teleologia (finalidade) com a gênese de um novo objeto.
Ao transformar a realidade (a natureza) o homem também se transforma porque desenvolve novas habilidades e porque precisa conhecer os nexos causais e as determinações mais importantes do setor da natureza que deseja transformar. As conseqüências dos atos humanos jamais coincidem completamente com a finalidade de sua origem, uma vez que há acaso nas objetivações, porque ao inserir na realidade já existente o novo objeto, desencadeia situações que jamais poderão ser previstas em sua totalidade. Isso altera não só a relação indivíduo/ natureza, mas também a relação dos indivíduos entre si, pois eles também têm que responder às novas necessidades e explorar novas possibilidades, postas nas novas situações que surgem. Logo:
“Os seres sociais tornaram-se mediados entre si e combinados dentro de uma totalidade social estruturada, mediante um sistema de produção e intercâmbio estabelecido.”(ANTUNES, 2006, p.19)
Para Lúkacs:
“Somente o trabalho tem na sua natureza ontológica um caráter claramente transitório. Ele é em sua natureza uma inter-relação entre homem (sociedade) e natureza (...) Todas as determinações que (...) estão presentes na essência do que é novo no ser social e estão contidas in nuce no trabalho. O trabalho, portanto, pode ser visto como um fenômeno originário, como modelo, protoforma do ser social.”( ANTUNES,2006, apud LUKÁCS, 1980)
O trabalho se constitui como categoria que possibilita o salto ontológico das formas pré-humanas para o ser social. Ele está no centro do processo de humanização do homem, para apreender sua essencialidade é preciso vê-lo como momento de surgimento do pôr teleológico (surgimento de sua finalidade) quanto como protoforma da práxis social. O trabalho é constitutivo do ser social, mas o ser social não se reduz ou esgota no trabalho. Quanto mais se desenvolve o ser social, mais as suas objetivações transcendem o espaço ligado diretamente ao trabalho, quanto mais rico o ser social, tanto mais diversificadas e complexas são as suas objetivações.
O ser social é mais que trabalho, uma vez que cria objetivações que ultrapassam o universo do trabalho, para tanto existe uma categoria teórica mais abrangente: a categoria de práxis. Tal categoria inclui todas as objetivações humanas, inclusive o trabalho. Os produtos e obras resultantes da práxis podem objetivar-se materialmente e/ou idealmente: no caso do trabalho, sua objetivação é necessariamente algo material, mas há objetivações que se realizam sem gerar transformações em uma estrutura material qualquer ( como os valores éticos)
“A categoria de práxis permite apreender a riqueza do ser social desenvolvido: verifica-se na e pela práxis, como, para além das suas objetivações primárias, constituídas pelo trabalho, o ser social se projeta e se realiza nas objetivações materiais e ideais da ciência (...) construindo um mundo de produtos, obras e valores – um mundo social, humano, enfim, em que a espécie humana se converte inteiramente em gênero humano.(...) a categoria de práxis revela o homem como ser criativo e autoprodutivo: ser da práxis, o homem é produto e criação da sua auto-atividade, ele é o que (se) fez e (se) faz.”(NETTO e BRAZ,2007,p.44)
Quando o indivíduo que realiza trabalho não se reconhece nele enquanto sujeito, cria-se uma cisão entre o sujeito e o objeto, uma relação de estranhamento que permite a (re) produção de relações sociais nas quais a riqueza humana socialmente construída não é apropriada material e espiritualmente pelo indivíduos que a construíram.
“A alienação se (re) cria em novas formas, que invadem todas as dimensões da vida social e a objetivação do ser social, como um campo de possibilidades; se realiza em termos do desenvolvimento humano-genérico mas não se objetiva para o conjunto de indivíduos sociais.”(BARROCO,2006,p.35)
Para que o trabalho se realize como atividade livre é preciso que seja uma atividade criadora, consciente, que amplie as forças essenciais do ser social. Logo, não pode ser entendido como um meio de sobrevivência nem de exploração e dominação entre os homens. O trabalho é a atividade fundante da liberação do homem, a liberdade é uma capacidade inseparável da atividade que a objetiva.
“Liberdade é, portanto, superação dos entraves históricos às objetivações essenciais do ser social, o que pressupõe fundamentalmente condições objetivas que possibilitem a realização do trabalho de forma livre e criativa.”(BARROCO, 2006,p.62)
A liberdade não se revela ao homem além das fronteiras da necessidade, como um campo autônomo independente e face do trabalho; surge do trabalho como de um pressuposto necessário. A ação humana que é determinada apenas por uma finalidade interior e não depende de uma necessidade natural ou de uma obrigação social não é trabalho; é uma livre criação, qualquer que seja o campo em que se realize.
“O autêntico reino da liberdade começa, portanto, além das fronteiras do trabalho, se bem que justamente o trabalho é que constitui a sua base histórica necessária:'O reino da liberdade só tem início efetivamente no ponto em que se pára de trabalhar sob pressão da necessidade e da finalidade exterior; segundo a natureza da coisa, ele se acha assim fora da esfera própria da produção material.'”(KOSIK,1976,p.189)
Com as mudanças no mundo do trabalho causadas pela reestruturação produtiva, ocorreu uma subproletarização do mesmo, decorrência das formas diversas de trabalho parcial, precário, terceirizado, subcontratado,vinculado à economia informal,ao setor de serviços, etc. Houve uma heterogeneização, complexificação e fragmentação do trabalho. Essas transformações penetram fundo no operariado industrial tradicional, acarretando metamorfoses no mundo do trabalho. As garantias ao trabalho são reduzidas ou mesmo eliminadas. Formas de exploração do trabalho que pareciam relíquias da história são reatualizadas, inclusive o trabalho semi-escravo e o infantil.
“O predomínio do capital fetiche conduz à banalização do humano, à descartabilidade e indiferença perante o outro, o que se encontra na raiz das novas configurações da questão social na era das finanças.(...)Condensa a banalização do humano que atesta a radicalidade da alienação e a invisibilidade do trabalho social e dossujeitos que o realizam na era do capital fetiche.”(IAMAMOTO,2008,p.125)
O Serviço Social é desafiado por esse contexto tão adverso por seu lugar específico na divisão sócio-técnica do trabalho. A profissão precisa adensar esse debate para que a partir de análises concretas com base na realidade, possa contribuir para o enfrentamento teórico-prático de forma crítica e com competência. Esse pensamento:
“Requer que os fenômenos e processos sociais sejam re-traduzidos na esfera do pensamento, que procura apreendê-los nas suas múltiplas relações e determinações, isto é, em seu processo de constituição e de transformação, pleno de contradições e mediações(em sua totalidade”.(IAMAMOTO,2008,p.26)
Não se pode pensar em uma “prática profissional” como prática do indivíduo isolado, desvinculado da trama social que cria sua necessidade e condiciona seus efeitos na sociedade. Onde a mesma é tida como uma relação singular entre o assistente social e o usuário de seus serviços, com frágil conhecimento das expressões da questão social e das políticas sociais correspondentes. Quando a formação universitária privilegia a construção de estratégias, técnicas e formação de habilidades, centrando-se no como fazer, a partir da justificativa de que o Serviço Social é uma “profissão voltada à intervenção no social”, está fadada a criar um profissional que, aparentemente sabe fazer, mas não consegue explicar as razões, o conteúdo, a direção social e os efeitos de seu trabalho na sociedade.
Os assistentes sociais interferem nas relações sociais cotidianas, no atendimento às variadas expressões da questão social, tidas como experimentadas pelos indivíduos sociais no trabalho, na família, na luta pelos seus direitos.
Um desafio da profisão é romper com os vieses ora fatalistas, ora messiânicos presentes no discurso de alguns assistentes sociais, tal como se constata no cotidiano profissional. O outro desafio é participar de um empreendimento coletivo, que permita, de fato, trazer para o centro do debate, o exercício e/ou trabalho cotidiano do assistente social.
“Verifica-se, pois, uma tensão entre os trabalho controlado e submetido ao poder do empregador, as demandas dos sujeitos de direito e a relativa autonomia do profissional para perfilar o seu trabalho. Assim, o trabalho do assistente social encontra-se sujeito a um conjunto de determinantes históricos, que fogem ao controle e impõem limites, socialmente objetivos, à consecução de um projeto profissional coletivo no cotidiano do mercado de trabalho.”(IAMAMOTO, 2008,P.424)
Os assistentes sociais podem contribuir para a construção desse projeto societário, com a adoção, no cotidiano, de algumas diretrizes, que são: compromisso com a qualidade dos serviços públicos prestados à população; posicionamento em favor da universalidade do acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais públicas;defesa da gestão democrática e articulação comas entidades da categoria dos assistentes sociais, com o movimento de outras categorias e com a luta pela garantia dos direitos dos trabalhadores. O desafio é fortalecer a luta pela garantia e ampliação dos direitos sociais e a democratização da política social.
“O pensar dialético das profissões como movimento;organização, saber, regulamentação exige uma análise concreta da realidade concreta, na qual existe uma pluralidade de dimensões da ação profissional, que implica tanto a relação com as forças do capital, como a relação de poder particularizada nas organizações, a relação com os usuários, a relação com os movimentos sociais e segmentos diferenciados das sociedades na prestação de serviços.”(FALEIROS,2008. P.37)
Para a realização de uma prática competente devemos observar a totalidade dos fatos, nos dar conta da relação entre o imediato e as mediações mais profundas das questões. Há que se abandonar os pensamentos simplificados, analisando as situações concretas como expressão de correlações de forças, articulando-se a análise dos conflitos, dos interesses em jogo e das estratégias em movimento.
“O impacto redistributivo das políticas sociais precisa ser analisado no contexto da correlação de forças onde se insere a ação do assistente social. O corte de certos recursos tem diminuído a amplitude da ação social, mas várias políticas, como a de combate à pobreza, vêm trazendo novas possibilidades de recursos. O processo contra-hegemônico precisa estar atento às conjunturas de forma permanente.”(FALEIROS,2008,p.43)
Não podemos perder a capacidade de crítica, a capacidade de buscar os fundamentos, a essência da crítica. Se quisermos viver a contemporaneidade com consciência de si, dos outros, do contexto, e com propostas, é preciso um reencontro profundo e constante com a crítica.
“A competência política e teórico-metodológica nos auxilia a demarcar os limites e alcances da prática profissional alicerçados num conjunto de habilidades que vão desde o reconhecimento das particularidades do terreno de atuação do Serviço Social e suas implicações político-ocupacionais até o domínio dos recursos técnico-instrumentais mobilizados para analisar e intervir sobre algum aspecto da realidade, como para sistematizar e refletir sobre sua própria prática.”(ALMEIDA,1996, p.41)
O Serviço Social têm que estar atento às mudanças ocorridas no mundo do trabalho por que essas mudanças interferem diretamente no cotidiano de seus usuários, e por consequência, nas demandas, que se tornam cada vez mais complexas. O profissional ao repensar as determinações sociopolíticas do seu trabalho passa a enfrentar, em conjunto com a sociedade, os dilemas da construção da esfera pública, da democracia, da cidadania dos direitos a ela inerentes, considerando as particularidades do exercício profissional e sua condição de cidadão.
Observamos alterações na demanda de trabalho do assistente social, no mercado de trabalho, nos processos de trabalho e nas condições em que se realizam, nos quais os assistentes sociais ingressam enquanto profissionais assalariados. As relações de trabalho são desregulamentadas e flexibilizadas. Verifica-se uma ampla retração dos recursos institucionais para acionar a defesa dos direitos e dos meios de acessá-los.
“São muitos os desafios atuais. O maior deles é tornar esse projeto um guia efetivo para o exercício profissional e consolidá-lo por meio de sua implementação efetiva, ainda que na contramão da maré neoliberal , a partir de suas próprias contradições e das forças políticas que possam somar na direção por ele apontada(...) Exige-se uma análise acurada das reais condições e relações sociais em que se efetiva a profissão, num radical esforço de integrar o dever ser com a objetivação desse projeto, sob o risco de se deslizar para uma proposta idealizada, porque abstraída da realidade histórica, elidindo as particularidades, determinações e mediações que incidem no prcessamento dessa especialização do trabalho coletivo.”(IAMAMOTO,2008,p.233)
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:
ALMEIDA,Ney Luiz T. de.”Considerações para o exame do processo de trabalho do Serviço Social.”Serviço Social & Sociedade.São Paulo:Cortez,n.52,dez 1996
ANTUNES,Ricardo.”Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho.”São Paulo: Boitempo,jun.2006
BARROCO,Maria Lúcia Silva.”Ética e Serviço Social:fundamentos ontológicos.”4°ed.
São Paulo, Cortez, 2006
FALEIROS Vicente de Paula.”O Serviço Social no mundo contemporâneo.”In:FREIRE,Lúcia M.B, FREIRE Silene de M.,CASTRO Alba T. Barroso (orgs.). “Serviço Social, política social e trabalho: desafios e perspectivas para o século XXI.”2°ed.São Paulo: Cortez;Rio de Janeiro, UERJ,2008
GORZ, André. “Direito ao trabalho versus renda mínima.”Serviço Social & Sociedade.São Paulo: Cortez,n.52,dez.1996
IAMAMOTO Marilda Vilela.” Serviço Social em tempo de capital fetiche:capital financeiro, trabalho e questão social.”2°ed.São Paulo:Cortez,2008
KOSIK,Karel.”Dialética do concreto.”.tradução de Célia Neves e Alderico Toribo,2°ed.Rio de Janeiro: Paz e Terra,1976
LESSA,Sérgio. “A centralidade ontológica do trabalho em Lukács.”Serviço Social & Sociedade.São Paulo: Cortez,n.52,dez.1996
NETTO,José Paulo e BRAZ, Marcelo.” Economia política uma introdução crítica.” São Paulo: Cortez,2007
SILVA. Maria do R. de F. e.”Adeus ao trabalho?Ensaio sobre as metamorfoses do mundo do trabalho”Serviço Social & Sociedade.São Paulo: Cortez,n.52,dez.1996
Devido a mudanças ocorridas no mundo do trabalho, mudanças essas que interferem diretamente nas demandas impostas ao Serviço Social, há a necessidade de se conhecer essa categoria que:
“...além de indispensável para a compreensão da atividade econômica, faz referência ao próprio modo de ser dos homens e da sociedade.”(NETTO e BRAZ, 2007,p.29)
As condições de existência e reprodução da sociedade se obtém numa interação com a natureza: a sociedade, através dos seus membros, transforma matérias naturais em produtos que atendem às suas necessidades. Essa transformação é realizada em virtude do trabalho. Para tanto, o homem se vale da objetivação, que transforma a finalidade previamente construída na consciência em um produto objetivo. O que era apenas uma idéia se transforma em um novo objeto, anteriormente inexistente, o qual possui história própria. É a mediação que articula a teleologia (finalidade) com a gênese de um novo objeto.
Ao transformar a realidade (a natureza) o homem também se transforma porque desenvolve novas habilidades e porque precisa conhecer os nexos causais e as determinações mais importantes do setor da natureza que deseja transformar. As conseqüências dos atos humanos jamais coincidem completamente com a finalidade de sua origem, uma vez que há acaso nas objetivações, porque ao inserir na realidade já existente o novo objeto, desencadeia situações que jamais poderão ser previstas em sua totalidade. Isso altera não só a relação indivíduo/ natureza, mas também a relação dos indivíduos entre si, pois eles também têm que responder às novas necessidades e explorar novas possibilidades, postas nas novas situações que surgem. Logo:
“Os seres sociais tornaram-se mediados entre si e combinados dentro de uma totalidade social estruturada, mediante um sistema de produção e intercâmbio estabelecido.”(ANTUNES, 2006, p.19)
Para Lúkacs:
“Somente o trabalho tem na sua natureza ontológica um caráter claramente transitório. Ele é em sua natureza uma inter-relação entre homem (sociedade) e natureza (...) Todas as determinações que (...) estão presentes na essência do que é novo no ser social e estão contidas in nuce no trabalho. O trabalho, portanto, pode ser visto como um fenômeno originário, como modelo, protoforma do ser social.”( ANTUNES,2006, apud LUKÁCS, 1980)
O trabalho se constitui como categoria que possibilita o salto ontológico das formas pré-humanas para o ser social. Ele está no centro do processo de humanização do homem, para apreender sua essencialidade é preciso vê-lo como momento de surgimento do pôr teleológico (surgimento de sua finalidade) quanto como protoforma da práxis social. O trabalho é constitutivo do ser social, mas o ser social não se reduz ou esgota no trabalho. Quanto mais se desenvolve o ser social, mais as suas objetivações transcendem o espaço ligado diretamente ao trabalho, quanto mais rico o ser social, tanto mais diversificadas e complexas são as suas objetivações.
O ser social é mais que trabalho, uma vez que cria objetivações que ultrapassam o universo do trabalho, para tanto existe uma categoria teórica mais abrangente: a categoria de práxis. Tal categoria inclui todas as objetivações humanas, inclusive o trabalho. Os produtos e obras resultantes da práxis podem objetivar-se materialmente e/ou idealmente: no caso do trabalho, sua objetivação é necessariamente algo material, mas há objetivações que se realizam sem gerar transformações em uma estrutura material qualquer ( como os valores éticos)
“A categoria de práxis permite apreender a riqueza do ser social desenvolvido: verifica-se na e pela práxis, como, para além das suas objetivações primárias, constituídas pelo trabalho, o ser social se projeta e se realiza nas objetivações materiais e ideais da ciência (...) construindo um mundo de produtos, obras e valores – um mundo social, humano, enfim, em que a espécie humana se converte inteiramente em gênero humano.(...) a categoria de práxis revela o homem como ser criativo e autoprodutivo: ser da práxis, o homem é produto e criação da sua auto-atividade, ele é o que (se) fez e (se) faz.”(NETTO e BRAZ,2007,p.44)
Quando o indivíduo que realiza trabalho não se reconhece nele enquanto sujeito, cria-se uma cisão entre o sujeito e o objeto, uma relação de estranhamento que permite a (re) produção de relações sociais nas quais a riqueza humana socialmente construída não é apropriada material e espiritualmente pelo indivíduos que a construíram.
“A alienação se (re) cria em novas formas, que invadem todas as dimensões da vida social e a objetivação do ser social, como um campo de possibilidades; se realiza em termos do desenvolvimento humano-genérico mas não se objetiva para o conjunto de indivíduos sociais.”(BARROCO,2006,p.35)
Para que o trabalho se realize como atividade livre é preciso que seja uma atividade criadora, consciente, que amplie as forças essenciais do ser social. Logo, não pode ser entendido como um meio de sobrevivência nem de exploração e dominação entre os homens. O trabalho é a atividade fundante da liberação do homem, a liberdade é uma capacidade inseparável da atividade que a objetiva.
“Liberdade é, portanto, superação dos entraves históricos às objetivações essenciais do ser social, o que pressupõe fundamentalmente condições objetivas que possibilitem a realização do trabalho de forma livre e criativa.”(BARROCO, 2006,p.62)
A liberdade não se revela ao homem além das fronteiras da necessidade, como um campo autônomo independente e face do trabalho; surge do trabalho como de um pressuposto necessário. A ação humana que é determinada apenas por uma finalidade interior e não depende de uma necessidade natural ou de uma obrigação social não é trabalho; é uma livre criação, qualquer que seja o campo em que se realize.
“O autêntico reino da liberdade começa, portanto, além das fronteiras do trabalho, se bem que justamente o trabalho é que constitui a sua base histórica necessária:'O reino da liberdade só tem início efetivamente no ponto em que se pára de trabalhar sob pressão da necessidade e da finalidade exterior; segundo a natureza da coisa, ele se acha assim fora da esfera própria da produção material.'”(KOSIK,1976,p.189)
Com as mudanças no mundo do trabalho causadas pela reestruturação produtiva, ocorreu uma subproletarização do mesmo, decorrência das formas diversas de trabalho parcial, precário, terceirizado, subcontratado,vinculado à economia informal,ao setor de serviços, etc. Houve uma heterogeneização, complexificação e fragmentação do trabalho. Essas transformações penetram fundo no operariado industrial tradicional, acarretando metamorfoses no mundo do trabalho. As garantias ao trabalho são reduzidas ou mesmo eliminadas. Formas de exploração do trabalho que pareciam relíquias da história são reatualizadas, inclusive o trabalho semi-escravo e o infantil.
“O predomínio do capital fetiche conduz à banalização do humano, à descartabilidade e indiferença perante o outro, o que se encontra na raiz das novas configurações da questão social na era das finanças.(...)Condensa a banalização do humano que atesta a radicalidade da alienação e a invisibilidade do trabalho social e dossujeitos que o realizam na era do capital fetiche.”(IAMAMOTO,2008,p.125)
O Serviço Social é desafiado por esse contexto tão adverso por seu lugar específico na divisão sócio-técnica do trabalho. A profissão precisa adensar esse debate para que a partir de análises concretas com base na realidade, possa contribuir para o enfrentamento teórico-prático de forma crítica e com competência. Esse pensamento:
“Requer que os fenômenos e processos sociais sejam re-traduzidos na esfera do pensamento, que procura apreendê-los nas suas múltiplas relações e determinações, isto é, em seu processo de constituição e de transformação, pleno de contradições e mediações(em sua totalidade”.(IAMAMOTO,2008,p.26)
Não se pode pensar em uma “prática profissional” como prática do indivíduo isolado, desvinculado da trama social que cria sua necessidade e condiciona seus efeitos na sociedade. Onde a mesma é tida como uma relação singular entre o assistente social e o usuário de seus serviços, com frágil conhecimento das expressões da questão social e das políticas sociais correspondentes. Quando a formação universitária privilegia a construção de estratégias, técnicas e formação de habilidades, centrando-se no como fazer, a partir da justificativa de que o Serviço Social é uma “profissão voltada à intervenção no social”, está fadada a criar um profissional que, aparentemente sabe fazer, mas não consegue explicar as razões, o conteúdo, a direção social e os efeitos de seu trabalho na sociedade.
Os assistentes sociais interferem nas relações sociais cotidianas, no atendimento às variadas expressões da questão social, tidas como experimentadas pelos indivíduos sociais no trabalho, na família, na luta pelos seus direitos.
Um desafio da profisão é romper com os vieses ora fatalistas, ora messiânicos presentes no discurso de alguns assistentes sociais, tal como se constata no cotidiano profissional. O outro desafio é participar de um empreendimento coletivo, que permita, de fato, trazer para o centro do debate, o exercício e/ou trabalho cotidiano do assistente social.
“Verifica-se, pois, uma tensão entre os trabalho controlado e submetido ao poder do empregador, as demandas dos sujeitos de direito e a relativa autonomia do profissional para perfilar o seu trabalho. Assim, o trabalho do assistente social encontra-se sujeito a um conjunto de determinantes históricos, que fogem ao controle e impõem limites, socialmente objetivos, à consecução de um projeto profissional coletivo no cotidiano do mercado de trabalho.”(IAMAMOTO, 2008,P.424)
Os assistentes sociais podem contribuir para a construção desse projeto societário, com a adoção, no cotidiano, de algumas diretrizes, que são: compromisso com a qualidade dos serviços públicos prestados à população; posicionamento em favor da universalidade do acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais públicas;defesa da gestão democrática e articulação comas entidades da categoria dos assistentes sociais, com o movimento de outras categorias e com a luta pela garantia dos direitos dos trabalhadores. O desafio é fortalecer a luta pela garantia e ampliação dos direitos sociais e a democratização da política social.
“O pensar dialético das profissões como movimento;organização, saber, regulamentação exige uma análise concreta da realidade concreta, na qual existe uma pluralidade de dimensões da ação profissional, que implica tanto a relação com as forças do capital, como a relação de poder particularizada nas organizações, a relação com os usuários, a relação com os movimentos sociais e segmentos diferenciados das sociedades na prestação de serviços.”(FALEIROS,2008. P.37)
Para a realização de uma prática competente devemos observar a totalidade dos fatos, nos dar conta da relação entre o imediato e as mediações mais profundas das questões. Há que se abandonar os pensamentos simplificados, analisando as situações concretas como expressão de correlações de forças, articulando-se a análise dos conflitos, dos interesses em jogo e das estratégias em movimento.
“O impacto redistributivo das políticas sociais precisa ser analisado no contexto da correlação de forças onde se insere a ação do assistente social. O corte de certos recursos tem diminuído a amplitude da ação social, mas várias políticas, como a de combate à pobreza, vêm trazendo novas possibilidades de recursos. O processo contra-hegemônico precisa estar atento às conjunturas de forma permanente.”(FALEIROS,2008,p.43)
Não podemos perder a capacidade de crítica, a capacidade de buscar os fundamentos, a essência da crítica. Se quisermos viver a contemporaneidade com consciência de si, dos outros, do contexto, e com propostas, é preciso um reencontro profundo e constante com a crítica.
“A competência política e teórico-metodológica nos auxilia a demarcar os limites e alcances da prática profissional alicerçados num conjunto de habilidades que vão desde o reconhecimento das particularidades do terreno de atuação do Serviço Social e suas implicações político-ocupacionais até o domínio dos recursos técnico-instrumentais mobilizados para analisar e intervir sobre algum aspecto da realidade, como para sistematizar e refletir sobre sua própria prática.”(ALMEIDA,1996, p.41)
O Serviço Social têm que estar atento às mudanças ocorridas no mundo do trabalho por que essas mudanças interferem diretamente no cotidiano de seus usuários, e por consequência, nas demandas, que se tornam cada vez mais complexas. O profissional ao repensar as determinações sociopolíticas do seu trabalho passa a enfrentar, em conjunto com a sociedade, os dilemas da construção da esfera pública, da democracia, da cidadania dos direitos a ela inerentes, considerando as particularidades do exercício profissional e sua condição de cidadão.
Observamos alterações na demanda de trabalho do assistente social, no mercado de trabalho, nos processos de trabalho e nas condições em que se realizam, nos quais os assistentes sociais ingressam enquanto profissionais assalariados. As relações de trabalho são desregulamentadas e flexibilizadas. Verifica-se uma ampla retração dos recursos institucionais para acionar a defesa dos direitos e dos meios de acessá-los.
“São muitos os desafios atuais. O maior deles é tornar esse projeto um guia efetivo para o exercício profissional e consolidá-lo por meio de sua implementação efetiva, ainda que na contramão da maré neoliberal , a partir de suas próprias contradições e das forças políticas que possam somar na direção por ele apontada(...) Exige-se uma análise acurada das reais condições e relações sociais em que se efetiva a profissão, num radical esforço de integrar o dever ser com a objetivação desse projeto, sob o risco de se deslizar para uma proposta idealizada, porque abstraída da realidade histórica, elidindo as particularidades, determinações e mediações que incidem no prcessamento dessa especialização do trabalho coletivo.”(IAMAMOTO,2008,p.233)
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:
ALMEIDA,Ney Luiz T. de.”Considerações para o exame do processo de trabalho do Serviço Social.”Serviço Social & Sociedade.São Paulo:Cortez,n.52,dez 1996
ANTUNES,Ricardo.”Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho.”São Paulo: Boitempo,jun.2006
BARROCO,Maria Lúcia Silva.”Ética e Serviço Social:fundamentos ontológicos.”4°ed.
São Paulo, Cortez, 2006
FALEIROS Vicente de Paula.”O Serviço Social no mundo contemporâneo.”In:FREIRE,Lúcia M.B, FREIRE Silene de M.,CASTRO Alba T. Barroso (orgs.). “Serviço Social, política social e trabalho: desafios e perspectivas para o século XXI.”2°ed.São Paulo: Cortez;Rio de Janeiro, UERJ,2008
GORZ, André. “Direito ao trabalho versus renda mínima.”Serviço Social & Sociedade.São Paulo: Cortez,n.52,dez.1996
IAMAMOTO Marilda Vilela.” Serviço Social em tempo de capital fetiche:capital financeiro, trabalho e questão social.”2°ed.São Paulo:Cortez,2008
KOSIK,Karel.”Dialética do concreto.”.tradução de Célia Neves e Alderico Toribo,2°ed.Rio de Janeiro: Paz e Terra,1976
LESSA,Sérgio. “A centralidade ontológica do trabalho em Lukács.”Serviço Social & Sociedade.São Paulo: Cortez,n.52,dez.1996
NETTO,José Paulo e BRAZ, Marcelo.” Economia política uma introdução crítica.” São Paulo: Cortez,2007
SILVA. Maria do R. de F. e.”Adeus ao trabalho?Ensaio sobre as metamorfoses do mundo do trabalho”Serviço Social & Sociedade.São Paulo: Cortez,n.52,dez.1996
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Serviço Social e sistematização da prática: elementos de discussão
Serviço Social e sistematização da prática: elementos de discussão
Profa. Dra. Isabela Sarmet de Azevedo
I-Introdução
Faz parte dos objetivos desta produção, situar o significado sócio-histórico do instrumental técnico-operativo do Serviço Social, pela adoção de uma perspectiva analítica, histórica e teórica, que permita apreendê-lo na sua condição de parte da intervenção do Serviço Social nas relações sociais e não como um arsenal de instrumentos e técnicas aplicáveis de forma padronizada.
Enquanto professora da disciplina de Instrumentos e Técnicas no Departamento de Serviço Social de Campos, do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal Fluminense, desenvolvemos, nos últimos anos, atividades de Assessoria ao Trabalho do Assistente Social, juntamente ao Conselho Regional de Serviço Social, Seccional Campos.
Atendendo às demandas da categoria profissional de nossa região, temos observado as dificuldades que alunos e profissionais de Serviço Social têm no sentido de explorar os instrumentos e as técnicas. Isso se deve, entre outras coisas, ao fato de que é intrínseca relação destes com as relações constituintes e constitutivas do Serviço Social.
Neste semestre, dando vigor as atividades de ensino, pesquisa e extensão da Universidade, introduzimos projetos que permitem resgatar, no âmbito da formação profissional, a dimensão técnico-operativa do Serviço Social. Estamos nos referindo ao projeto de pesquisa, denominado Desvendando instrumentos e técnicas no Serviço Social: a adoção de uma política de trabalho e a garantia de um serviço público de qualidade e ao projeto de extensão, intitulado Legislação social, políticas públicas e exercício profissional: estudo para concursos públicos e atividades de assessoria para fins acadêmico-profissionais. Tais projetos compõem a estrutura das atividades oferecidas pelo Grupo de Assessoria ao Trabalho do Assistente Social – um grupo que vem oferecendo atividades de capacitação aos profissionais de Serviço Social, já há alguns anos, também em parceria ao Conselho Regional de Serviço Social/Seccional de Campos.
Essas atividades respondem às demandas evidenciadas e, convida-nos, de um lado, a um mergulho na história de nossa profissão – o que explica a razão pela qual os instrumentos e técnicas foram, pouco a pouco, negligenciados no debate contemporâneo da profissão – e, de outro lado, a necessidade de assessorar os assistentes sociais já formados e em formação, para que assumam a apropriação teórico-prática da legislação social – que regulamenta o conjunto dos direitos e deveres de cidadania – no âmbito das políticas públicas e sociais, identificando-os, bem como os modos pelos quais podem ser acessados, dando visibilidade, em suas práticas e registros, às possíveis violações cotidianas e os recursos cabíveis no âmbito institucional (nos Conselhos, no Ministério Público, na Defensoria Pública e outros órgãos de fiscalização e controle social).
É preciso ampliar o debate teórico-metodológico do Serviço Social no interior da tradição marxista, num esforço para romper com a herança pragmática e empiricista que permeia o entendimento da técnica no debate profissional, lembrando que nenhuma técnica se define fora de um contexto histórico e de uma opção teórico-metodológica.
Ainda é corrente, entre segmentos conservadores e núcleos da categoria profissional, a tentativa de desqualificar as propostas oriundas desta perspectiva [intenção de ruptura] com a “argumentação” de que são frutos de atividades “estranhas” às “práticas de campo” do Serviço Social. Aqui, mais que em qualquer outra situação, retoma-se o velho refrão segundo o qual, na “prática”, a “teoria” é outra. (Netto, 1990, p.249).
A técnica é a utilização de um saber e não um instrumento auxiliar, neutro, deslocado de um contexto sócio-histórico. Ela é “teoria em atos”, em movimento, que não pode ser vista sob a ótica marcadamente voluntarista, desprovida de um saber teórico.
Os instrumentos são construídos de acordo com as finalidades e o modo de pensar e agir do profissional. Para Santos (2006), há uma especificidade no uso dos instrumentos pelo Serviço Social, a qual precisa ser definida, pensada e trabalhada pelo conjunto da categoria profissional. E ela envolve objetivos, princípios, objetos, demandas e direção social.
A instrumentalidade significa o conteúdo que antecede a escolha dos instrumentos e técnicas e responde as seguintes questões:
O que fazer?
Onde fazer?
Por que fazer?
Para que fazer?
Como fazer?
A instrumentalidade sofre determinações da dinâmica social da qual emergem as demandas para as instituições nas quais trabalha o assistente social.
Assim, o estudo dos instrumentos e técnicas não limita o instrumental à condição de repertório interventivo, a um rol de instrumentos e técnicas que seriam suficientes para a eficácia da ação. Nossa perspectiva teórica aponta a insuficiência de uma visão de instrumental técnico-operativo restrito à habilidade e ao manejo desse repertório, pois esta é uma concepção que isenta o instrumental de suas relações mais amplas.
As técnicas não são portadoras de uma capacidade imanente para alcançar determinados resultados, pois são mobilizadas a partir das finalidades postas em face da realidade a ser transformada. Elas não trazem em si uma dinâmica de aplicação que, se seguida á risca, proporciona a consecução daquilo que foi planejado.
Nesse sentido, o presente material didático tem o objetivo de não só discutir a sistematização da prática, mas, fomentar novas posturas ético-políticas e teórico-metodológicas diretamente relacionadas à operacionalidade do Serviço Social.
I-O Serviço Social e a sistematização da prática:
Trata-se, na verdade, de um esforço crítico, de natureza teórica, sobre a condução da atividade profissional, constituindo-se como um esforço problematizador sobre suas diferentes dimensões em relação às expressões cotidianas da realidade social, mediatizadas pelas políticas sociais, pelos movimentos sociais, pela forma de organização do trabalho coletivo nas instituições e, sobretudo, pelas disputas societárias. (Almeida, 2006, p.403).
O assistente social atua no campo das necessidades sociais, que se transformaram, ao longo da história, em dimensões da questão social, tais como se manifestaram na sociedade capitalista, como expressões das desigualdades econômicas, políticas, culturais e sociais. Nesse sentido, atingiram “visceralmente a vida dos sujeitos numa ‘luta aberta e surda pela cidadania’ (Ianni, 1992), no embate pelo respeito aos direitos civis, sociais e políticos e aos direitos humanos” (Iamamoto, 2005, p.19).
A natureza do trabalho do assistente social é marcada pela sua inserção nas instituições prestadoras de serviços sociais, vinculados às políticas sociais, onde se volta à regulação das relações sociais e não diretamente à produção material.
O trabalho profissional do assistente social cria as condições necessárias ao processo de reprodução social, uma vez que incide sobre as condições de vida dos trabalhadores (através de bens e serviços complementares à sua sobrevivência); produz efeitos ideológicos que reforçam ou não a aceitação das condições de compra e venda da força de trabalho e atende às necessidades de normatização e controle dos comportamentos sociais.
Ao longo de sua história, o Serviço Social tem conseguido forjar um conjunto de procedimentos de registro e avaliação de suas atividades, desde relatos de suas abordagens individuais ou grupais até reuniões de equipe, se ocupando de produzir informações e organizar processos em que a sua prática pudesse ser objeto de reflexão.
Embora fosse regular o procedimento de registrar dados, não houve a construção de uma cultura profissional alimentada por atividades investigativas, com sistematização do trabalho no Serviço Social.
Para Almeida (2006, p. 401), os procedimentos de registro acabam por configurar a burocracia institucional onde atua o assistente social e as reuniões de equipe carecem de objetividade, porque estão ausentes os instrumentos necessários aos processos de reflexão e avaliação do trabalho.
Sabemos que políticas, estratégias, diretrizes (princípios normativos que dão unidade à ação, englobando diferentes aspectos que compõem o trabalho) e prioridades institucionais estão, a todo o momento, se plasmando na demanda que recebemos, mas esta somente existe porque uma problemática desafia a ação institucional, e está inscrita no campo das questões mais amplas da conjuntura municipal, estadual, nacional e internacional. Não podemos desprezar, no entanto, que a demanda institucional também é determinada historicamente pelos modos de ser e de aparecer das relações na sociedade capitalista, que tem particularidades à brasileira, que se expressam de muitas formas: “jeitinho brasileiro”, “toma-lá-dá-cá”, “política do favor e do compadrio”, do “você sabe com quem está falando?” etc.
Em vista disso, as normas institucionais têm um sentido e uma finalidade, não sendo procedimentos descritivos apenas do modo de funcionamento da organização. Elas fundamentam e sustentam, por assim dizer, uma determinada ideologia (que, como sabemos, oculta e dissimula a realidade dos fatos, contribuindo para determinadas formas de dominação, quando não desvendadas e problematizadas pela reflexão cotidiana). Portanto, não podemos ignorar que os procedimentos, os dispositivos e o discurso desses dispositivos não se separam da maneira como são vividos pelas pessoas e dos valores com os quais elas estão engajadas e comprometidas. Ou seja, os dispositivos operacionais se vinculam à ideologia, como forma das pessoas interiorizarem determinadas condutas, as legitimando, bem como aos princípios que as regem.
(...) tem-se claro que as normas institucionais são construídas e operadas pelos sujeitos, portanto, nem sempre assimiladas e assumidas da mesma forma – elas podem ser aprofundadas ou subvertidas: relações independentes das formais podem ser estabelecidas, trabalhos alternativos podem emergir dentro da instituição e, por sua competência, constituir grupos de referência que a ultrapassem.
Nesse sentido, é fundamental analisar a dinâmica interna e a estrutura das relações da instituição na qual se opera o projeto. A análise da equipe – seus valores, suas características – irá permitir identificar situações que podem tanto potencializar o alcance de seus resultados. (Batista, 2003, p. 56)
Embora a leitura sobre a realidade seja o ponto de partida para subsidiar as decisões tomadas sobre as manifestações da questão social, canalizando as demandas da população para projetos, programas e planos no âmbito institucional, ainda não conseguimos algumas conquistas importantes como condições dignas de trabalho, para atender o nosso usuário com dignidade, que nos permitam construir vínculos de pertencimento e de reconhecimento civil, diante de sua problemática. Como formular o seu drama cotidiano em linguagem pública de direitos? Como fazê-los acreditar nas instituições, que os submetem a rituais vexatórios, que os expõem publicamente?
Por exemplo, num relatório ou parecer social, é preciso evitar juízos de valor que exponham os usuários, desnecessariamente, porque isso atenta aos princípios e diretrizes de nosso Código de Ética Profissional. É preciso lembrar que, no modo tradicional de se agir profissionalmente, perdia-se a referência concreta no sujeito – a população entrava como “usuária”, “demandante”, “clientela”, mas nunca como ser histórico. Agora, a população, em tese, é personagem central do processo, podendo inverter a tendência clássica à burocratização e ao conservadorismo das decisões. Portanto, qualquer entrevista, reunião, grupo, palestra, abordagem ou encaminhamento do Serviço Social deve procurar ser benéfica a essa população, não a julgando, nem a condenando por seus comportamentos alienados e alienantes, mas procurando despertá-la à reflexão sobre sua situação, através de formas menos destrutivas de se relacionar em sociedade.
Para lembrarmo-nos das nossas responsabilidades éticas, Portelli (1997, p.14) afirma: “Tenho um compromisso comigo mesmo de não usar o material da entrevista de formas que possam prejudicar a pessoa de quem o obtive, nem de a ela desagradar”. Quão grande sabedoria está contida nessas palavras, pois é preciso ter a vontade utópica e avontade de saber “como as coisas realmente são”, equilibradas por uma atitude aberta às muitas variáveis de “como as coisas podem ser”.
A inércia dos dados fichados se mistura ao intenso fluxo de informações e, longe de contribuírem para a qualificação dos serviços, parecem ser um “arquivo morto”. No entanto, nós sabemos que eles estão vivos e somente o contato entre o significado da linguagem das pessoas e a realidade concreta é que nos permite o acesso aos nexos de nossa intervenção, indo para além da prática instituída. Ter uma visão totalizadora da problemática que nós enfrentamos, organizando nossa rotina para, em algum momento do dia, pensar sobre o que estamos fazendo é fundamental nesse sentido.
Porém, não dispomos de computadores que nos permitam informatizar os dados contidos nas fichas dos usuários, que são fontes ricas de conhecimento, mas acabam “esquecidos” num arquivo, cuja organização não facilita muito o trabalho de sistematização, porque fichas antigas e atuais se misturam. A quem interessa isso?
A reflexão voltada, reiteradamente, aos dados coletados através de entrevistas, questionários e formulários pode nos conduzir à análise e ao estudo de alternativas, à superação e à reconstrução de conceitos e práticas de diferentes disciplinas, com a explicitação, quantificação e qualificação dos fatos sociais, sobre os quais precisamos projetar nossas ações.
Ao mesmo tempo em que refletimos, estamos decidindo, escolhendo as alternativas, determinando os meios através dos quais alcançaremos nossos objetivos e projeções, estipulando prazos para isso.
Quando “deixamos o barco correr”, não tendo clareza sobre onde começa e onde termina o que estamos fazendo e, simplesmente, não nos determinamos a fazer o que precisa ser feito: a execução das ações projetadas deve se operar em consonância com a reflexão e a decisão que tomamos, seguindo-se de uma nova reflexão sobre os processos e as conseqüências inscritas nas relações de poder, com vistas à sistematização da prática, à luz de uma teoria que a ilumine os caminhos.
I-Desvendando instrumentos e técnicas no Serviço Social: a adoção de uma política de trabalho e a garantia de um serviço público de qualidade.
A transgressão aqui é apreendida como o movimento dialético que compreende o verso e o reverso, a negociação e a luta, avanços e recuos, e não uma visão singularizada da prática social. O que se espera é uma apreensão do caráter contraditório da ação entre o assistente social e a população, na medida em que a sua prática é polarizada por interesses de classe, o que faz da instituição um “palco da luta de classes. (Veloso, 1995).
Há confrontos e diferentes maneiras de enfrentá-los no âmbito institucional. É preciso reconhecer as forças sociais que polarizam o nosso projeto, mas que isso não nos gere imobilismo. Podemos fazer um estudo reiterado e crítico das práticas cotidianas, encontrando o fio condutor para novas práticas. Embora isso não seja permitido institucionalmente, precisa ser conquistado profissionalmente, cotidianamente.
Esta conquista se materializa pela documentação, não a institucional (para quem só se importa com as estatísticas), mas a feita pelo profissional, que lhe permite o registro da ação desenvolvida, através de relatórios descritivos (e não sintéticos1) das entrevistas, das reuniões, visitas, abordagens, encaminhamentos e outros instrumentos desenvolvidos na relação com os usuários, com a instituição onde se trabalha e com as outras com quem estabelece possíveis parcerias. Um diário de observações (ou caderno de campo) poderá ser rico para avaliações subseqüentes, e não deve ser deixado à vista de outros profissionais, mas mantido em sigilo, como modo de preservar-se nessa relação institucional.
Segundo Mioto (2001, p.146), o assistente social que realiza um estudo social, o faz, em geral, por solicitação de outros profissionais ou autoridades das mais diferentes áreas (como os do Ministério Público, por exemplo) e o utiliza como um instrumento para conhecimento e análise da situação vivida por determinados sujeito ou grupo de sujeitos sociais, para finalmente emitir uma opinião técnica a respeito.
O estudo social consiste, portanto, na articulação de vários instrumentos, a saber: a entrevista (individual ou coletiva), a observação, a visita (domiciliar ou institucional) e a análise de documentos.
Todo o processo de abordagem dos sujeitos (entrevistas, observações, análise de documentos) deverá ser documentado, preferencialmente por meio de relatórios descritivos e de outras formas de observação (quadros, diários de campo). A documentação constitui a base para a efetivação da análise da situação e da elaboração do laudo social. (Mioto, 2001, p.154).
Os registros feitos devem ser apreciados sobre o ponto de vista da redação, da clareza e precisão dos argumentos, das referências que o profissional se apropria teórico-metodologicamente, na legislação social, institucional e/ ou profissional. É preciso verificar se o documento feito contém a inter-relação e coerência entre seus diferentes itens, se o que se prioriza na descrição e análise trata-se de um problema significativo (se realmente for, podemos explicar por que o é; e fazer uma oportuna abordagem sobre ele e apresentar a alternativas consistentes para o que está sendo abordado, com justificativas plausíveis para isso).
O trabalho de campo é um experimento de igualdade, baseado na diferença. É preciso “que sempre exista uma linha” de diferenças que, depois de transposta, torne-se plena de significado, mas é necessário que exista também uma “linha”, segundo a qual possamos comunicar o desejo de encontrar um terreno e uma linguagem comuns que possibilitem a troca. (Portelli, 1997, p.19).
Na maioria das vezes, esquecemo-nos que o poder, o status e o prestígio reais ou imaginários, oferecidos por nossa profissão interferem no desempenho do trabalho. Devemos criar um ambiente propício para que as pessoas possam se manifestar, respeitando seus próprios limites e possam tomar suas próprias decisões. Não conseguiremos isso ignorando as diferenças que nos tornam desiguais, nem paternalisticamente, simulando uma igualdade que inexiste.
Para Sarmento (1994), os assistentes sociais são entrevistadores por excelência. Isso quer dizer que, quando entrevistamos, mantemos um contato pessoal, de caráter confidencial com o usuário, visando acumular dados e informações que, quando sistematizados, poderão subsidiar estudos, elaborações e procedimentos que sirvam de apoio ao enfrentamento da questão social, no campo das políticas públicas e sociais.
Há aí uma clara relação entre o assistente social e o usuário, envolvendo aspectos objetivos e subjetivos. Esses aspectos contextualizam a situação do usuário, compreendendo as relações que envolvem sua realidade, bem como a situação particular que gerou a necessidade da entrevista. Portelli (1997, p.21) afirma que quase todas as pessoas são suficientemente perspicazes para discernir quando alguém está tentando seduzi-las ou usá-las.
A abordagem ética ou cortês é cientificamente compensadora: boas maneiras e respeito pessoal constituem um bom protocolo para trabalho de campo. Se ouvirmos e mantivermos flexível nossa pauta de trabalho, a fim de incluir não só aquilo que acreditamos querer ouvir, mas também o que a outra pessoa considera importante dizer, nossas descobertas sempre vão superar nossas expectativas.
Mostre-se aberto, fale sobre você, responda a perguntas (se as fizerem). Por que devo eu esperar que os outros falem de sua vida se eu não me mostro disposto a contar algo a respeito da minha? (Idem, p.22)
O assistente social, através da entrevista, tem o objetivo de abordar o sujeito envolvido numa situação sobre a qual ele, enquanto profissional, tem que emitir um parecer e decidir sobre o acesso a um recurso institucional. Como esta relação envolve poderes e saberes diferenciados, o assistente social deve se preparar a entrevista, a fim de que o usuário configure a relação ali instituída, do modo menos diretivo possível. Isso não quer dizer que, a todo tempo, diremos ao nosso interlocutor que ele tem sempre a razão. Essa é a pior forma de paternalismo. Nas entrevistas ou nas abordagens informais, podemos com tranqüilidade indagar – “você tem certeza?” – ou afirmar – “não sei se concordo com você”, “outras pessoas já me deram versões diferentes desse episódio”. Essas contradições, quando num contexto de uma entrevista, abordagem ou reunião, se feitas de forma polida e bem-educada, podem dar lugar a comentários mais longos, com explicações e análises que, em outras circunstâncias, não teríamos conhecimento; ou podem fazer com que o interlocutor sinta-se valorizado na diferença do seu ponto de vista.
Pode existir uma incompatibilidade entre diferentes interpretações. Embora não tenhamos a obrigação de relatar com a maior fidelidade possível as palavras que os entrevistados realmente proferiram, a responsabilidade que temos em relação a eles não significa estarmos sempre de acordo com o que dizem. (Portelli, 1997, p.27)
Cabe ressaltar que, segundo Mioto (2001), as entrevistas poderão ser realizadas individualmente ou com grupos de sujeitos (um casal, uma família, o pai com os filhos), chamadas de entrevistas conjuntas, onde é possível observar e fazer o estudo direto das tramas concretas presentes entre eles e permitindo uma apreensão da dinâmica e da estrutura das relações das famílias e entre determinados membros da família.
Além de viabilizar o encontro dos sujeitos envolvidos direta ou indiretamente na situação, as relações estabelecidas durante a entrevista poderão gerar material relevante para o conhecimento da situação. Segundo Portelli (1997, p.25), muito do que acontece na mente das pessoas, em termos de sentimentos, emoções, crenças, interpretações e, por esse motivo, até mesmo erros, invenções, mentiras constituem à sua maneira, áreas onde se encontra a verdade.
Quanto ao aspecto técnico, vale ressaltar que o profissional precisa de habilidade para saber iniciar, desenvolver e concluir uma entrevista ou qualquer outro procedimento de intervenção. Técnica é algo que se adquire com o passar do tempo, com a prática e com a experiência, mas é algo que não dispensa a teoria. Há o momento certo de fazer ou não determinadas perguntas; há o momento certo de tomar notas.
Quanto a este último ponto, o ideal é, no início de uma entrevista, tomar nota sobre alguns dados pessoais do usuário e ao término desta, quando necessário. Durante a entrevista, deve-se prestar toda atenção no sujeito que a demanda, suas razões, seus sentimentos e atitudes diante das dificuldades, afinal, para ser assistente social é preciso ter um conhecimento sobre a natureza humana (Sarmento, 1994, p.284).
A entrevista utilizada pelo profissional de Serviço Social serve para a obtenção de dados e o conteúdo desta entrevista compõe o processo de diálogo e reflexão estabelecido entre o usuário e o assistente social, sendo, portanto, fundamental para o estudo e o encaminhamento da situação na qual se encontra o sujeito entrevistado. “O pesquisador pergunta e retém seu ponto de vista, e deixa o pesquisado livre para organizar sua resposta” (Delhomme & Meyer, 2002, apud Nunes, 2005, p.208).
Visamos com esse tipo de entrevista acessar o que a pessoa pensa, sente, suas intenções, comportamentos e atitudes, o que ela traz em mente sobre diversos temas, que são significativos e passíveis de serem conhecidos e explicitados (Patton, 1986, apud Nunes, 2005).
Algumas táticas (meios) de entrevista podem ser vislumbradas em nossa ação profissional. A entrevista feita para a coleta de dados e informações é mais formal sistematizada, com um roteiro objetivo, num tempo delimitado (geralmente pelo fluxo das instituições) e há um aprazamento (marcação de entrevista). Já a entrevista de cunho terapêutico é uma conversação mais espontânea, onde não há delimitação de tempo e ocorre uma cartase (desabafo).
A tarefa do assistente social, durante a entrevista, consiste em produzir o máximo de informações relevantes, mantendo o relacionamento profissional no melhor nível possível – proporcionando um ambiente agradável para que o entrevistado se sinta à vontade.
Aquilo que realmente restituímos é uma oportunidade para as pessoas com quem conversamos organizarem seus conhecimentos com maior clareza: um desafio para aumentarem sua consciência, para estruturarem aquilo que já sabemos – processo que começa com a entrevista e continua, à medida que se defrontam com nossas conclusões. Esse processo ocorre mais nas mentes das pessoas do que nos arquivos. Nossa primeira responsabilidade no tocante à restituição é com nosso próprio desenvolvimento e aquele das pessoas com quem encetamos um diálogo, iniciando-se concomitantemente à entrevista. Restituição significa mais do que a devolução de materiais; também se faz necessária, a fim de propor um discurso experimental, uma possível organização, uma gama de interpretações. (Portelli, 1997, p.29-30).
Porém, o que se observa nos bastidores da prática, afirma Veloso (1995), o assistente social tem um papel ativo, já que detém os dados informativos, em contraste com uma posição pouco participativa da população usuária, que ora aparece como respondente das perguntas que lhe são feitas, ora como mera expectante do discurso informacional que lhe é transmitido via ação educativa, através de palestras ou reuniões. Isso imprime um caráter burocratizante e repetitivo a tal ação, desconsiderando a dimensão subjetiva e qualitativa do fazer profissional.
É comum instaurar-se um mecanismo de compulsoriedade à rotina dos serviços institucionais, mediante a passagem obrigatória da população pelo Serviço Social. Nesse contexto impositivo, afirma Veloso (1995), a entrevista de rotina do Serviço Social vem se tornando um espaço desagradável, quando não se resvala para a inconveniência da “invasão de privacidade” da população.
Muito raramente perguntamos ao usuário o que ele pensa sobre a normatização da instituição em que trabalhamos, sobre a entrevista que irá participar e lhe damos esclarecimentos precisos, no que diz respeito aos objetivos profissionais do Serviço Social – o por que, o para que e a quem serve essa entrevista. Há o perigo da entrevista se transformar num interrogatório, de feição policialesca, durante a qual se vasculha a vida pessoal e privada dos sujeitos (Veloso, 1995).
Um questionário fechado, com perguntas objetivas sobre as condições de vida e de trabalho dos usuários - através da coleta de informações meramente quantitativas – inibe a possibilidade de respostas e dificulta o aprofundamento de temas por parte do entrevistado.
Nem sempre fica claro para a população quais são os objetivos desse tipo de entrevista/ interrogatório realizada pelo Serviço Social. Segundo o Art.5º do Capítulo I do Código de Ética Profissional, é dever do assistente social, na relação que mantém com o usuário, esclarecer, no início do trabalho, quanto aos objetivos e a amplitude de sua atuação profissional. Há que se assegurar ao usuário o direito de escolha sobre se quer participar ou não dessa relação que deve ser democrática, entendida como a possibilidade de se trabalhar com e na diferença e não através de uma prática impositiva e autoritária por parte do profissional. (Veloso, 1995).
Há aquele tipo de profissional arrogante, que acredita-se possuidor de uma pseudo-superioridade teórica e política, que atribui a si mesmo o dever de propagar a verdade, de levar a “boa nova ao povo”. Nesta ótica atrofiada, o povo aparece como mero objeto passivo de sua ação profissional de vanguarda.
Segundo Veloso (1995), há na relação entre o profissional e a população algumas distinções importantes, a saber:
Diferentes níveis de representação do real;
Diferentes formas de consciência social;
Uma relação entre sujeitos que atuam em contextos históricos determinados;
Processos que entram em jogo na constituição do sujeito e de sua linguagem (sua interpelação pela ideologia).
Cabe ao assistente social, na condição de sujeito portador de poder (pelo lugar que ocupa na instituição), de um discurso (fruto de sua visão de mundo), veiculado através da linguagem, assumir uma atitude de auto-questionamento constante na relação que estabelece com a população usuária dos serviços sociais.
Numa relação profissional, estão em jogo seus interlocutores, a situação e o contexto sócio-histórico e ideológico. Há, portanto, uma pluralidade de discursos e práticas profissionais.
As ações educativas estão se transformando, segundo Veloso (1995), num regime de procuração e tutela, na medida em que os termos operacionais, as teorias nas quais se assentem o discurso profissional são apenas confirmadas e jamais refutadas.
É preciso assegurar a veiculação das mais diversas ideologias e culturas sobre o objeto da ação educativa. Essa “escuta”, “esse saber ouvir”, é imprescindível no exercício profissional do Serviço Social, que se quer democrático e pluralista.
Ser acolhedor, cordial não é “ser bonzinho”, mas possibilitar a abertura do outro. É preciso tomar cuidado para não entrar demais na intimidade do usuário. É preciso manter o nível de relacionamento profissional, mas com um vocabulário acessível ao nível de entendimento do usuário. O verdadeiro serviço que prestamos a movimentos e indivíduos consiste em fazer com que sua voz seja ouvida, em levá-la para fora, em pôr fim a sensação de isolamento e impotência, em conseguir que seu discurso chegue a outras pessoas e comunidades (Portelli, 1997, p.31).
Cabe ressaltar, no entanto, que, ao longo de todo esse processo, devemos ter em mente o consentimento esclarecido, o direito à privacidade e a proteção do entrevistado contra danos (Denzin & Lincoln, 2003, apud Nunes, 2005, p.219).
“A divulgação de escritos, a transmissão da palavra ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa” exigem sua autorização, conforme consta no Código Civil, no item Dos direitos da personalidade. (Brasil, 2002). Também o Ministério da Saúde (Brasil, 1996) obriga a utilização do termo de consentimento em pesquisas envolvendo seres humanos.
Não se pode desconsiderar os diferentes espaços e situações em que se materializa a prática do assistente social. Também não se pode generalizar e universalizar a conduta profissional através da entrevista.
Para o usuário, a entrevista tem alguns custos, a saber: ter que se expor para pedir algo, estar inseguro (sentir-se humilhado, inferior em relação a quem pede), reviver algum momento traumático, podendo esquecer algum dado importante. Mas, por outro lado, há recompensas nesse encontro, tais como: ser reconhecido como pessoa com direitos (quando o assistente social sabe informá-los), ter expectativas preenchidas, ter a oportunidade de fazer uma cartase (um desabafo das dificuldades pessoais).
O importante é saber ouvir, saber perguntar, interpretar, conduzir a entrevista e fazer uma pausa para reflexão. Antes de iniciá-la, é preciso escolher os objetivos, o tempo destinado a ela, o local, a situação, com atenção a quem vai participar dela e qual é o papel desempenhado por cada um nessa relação. Preparada a entrevista, devemos nos apresentar, indicar o que a instituição pretende com esta entrevista, explicando qual é a sua finalidade, ou seja, o porquê esta pessoa vai ser entrevistada. A garantia do anonimato pode ser um importante elemento em certas incursões feitas pelo assistente social.
Há, portanto, condições a serem cumpridas ao longo da entrevista, a saber:
O entrevistado aceita responder às questões;
Compreende as questões;
Possui as informações ou é capaz de acessar a memória para obtê-las e está motivado;
Aceita responder e é capaz de responder no enquadre previsto pelo profissional.
As questões precisam ser livres de julgamento de valor ou de atribuição de causalidade e responsabilidade. Devem conter elementos que o pesquisado conheça ou se dirigir as suas opiniões, crenças, intenções comportamentais, ou ainda à declaração de comportamentos passados e atuais; podendo propiciar ao entrevistado uma auto-descrição ou recordações de fatos.
A formulação das questões deve obedecer às seguintes observações:
Frases curtas, claras, simples, com vocabulário preciso e adaptado ao nível de compreensão do entrevistado;
Que se formule uma questão de cada vez – mais de uma deixa o entrevistado sem saber a qual responder;
Cuidar para que a questão não seja tendenciosa, pois a resposta não permite, de fato, que se conheça a percepção, os pressupostos do entrevistado;
O uso de exemplos pode dificultar ao entrevistado que responda sem ficar preso ao conteúdo do exemplo;
Evitar o uso de termos técnicos, verbos negativos ou positivos, pois isso pode orientar a resposta;
Também ter o cuidado com palavras muito carregadas emocionalmente ou aquelas extremas “nunca”, “sempre”, “ninguém”.
A condução da entrevista requer o preparo, a colocação de cadeiras ou poltronas, nem muito perto nem muito longe.
Para motivar o entrevistado, pode se usar as seguintes táticas:
-Animar por gestos e expressões, tais como “hum, hum, sim...” e auxiliar a elaborar a verbalização: “E então?” ou “Há algo mais que você gostaria de dizer sobre isso?” Ou ainda: repetir, sem formular uma pergunta direta, expressões do entrevistado, de modo a fazê-lo continuar em sua narrativa.
-O entrevistado, por vezes, precisa recapitular parte do que falou, buscando esclarecimento sobre algo que não compreendeu ou que parece contraditório.
-É necessário saber quando mudar de tema.
Todas essas maneiras de conduzir a entrevista dependem da capacidade empática do próprio assistente social, que deve ainda tolerar silêncios, proceder com seu roteiro de forma sutil, sem que a entrevista se transforme num interrogatório. Precisa também de sutileza para checar incongruências, mantendo-se livre de fazer julgamentos sobre o entrevistado e o que ele veicula.
O assistente social deve estar atento aos pontos trazidos pelo usuário, mantendo-se capaz de ler nas entrelinhas, cuidando das incoerências, avaliando as respostas. Para finalizar, é conveniente perguntas ao entrevistado se ele deseja tratar de mais alguma coisa que pense e que não tenha sido trabalhada. E agradecer ao usuário pela sua participação.
Outro importante instrumento que acompanha a entrevista é a observação. Ela é utilizada para poder analisar, coletar, conhecer e reconhecer as diferenças e serve para:
-Para observar a vida do entrevistado em seu ambiente social, em sua interação com seus familiares ou pessoas do cotidiano;
-Para notar como o indivíduo entrevistado reage às perguntas, o tom de voz, as hesitações e as atitudes para com o entrevistador;
-Para observar se o entrevistado age realmente como diz ao entrevistador.
Para Mioto (2001), é importante observar:
-a pessoa antes do acontecimento;
-o acontecimento;
-voltar a entrevistar a pessoa após o acontecimento;
-a observação vai ser sempre seletiva e parcial;
-o assistente social é um observador participante, mas deve cuidar para que seus juízos de valor (seus preconceitos) não interfiram no andamento da entrevista ou do procedimento que desenvolve;
-a observação não pode estar em todos os ângulos possíveis e imagináveis.
Ao retomarmos os dados levantados numa entrevista, numa abordagem, reunião, grupo ou na execução de qualquer outro procedimento interventivo, num movimento de sistematização da prática, podemos ainda observar e analisar o modo como resiste a uma situação. Existem, é claro, “pistas não-verbais”. Nossas ações, freqüentemente, mostram nossa resistência:
-Mudar de assunto;
-Sair da sala;
-Ir ao banheiro;
-Chegar atrasado;
-Ficar doente;
-Adiar;
-Fazer qualquer outra coisa;
-Ocupar-se;
-Desperdiçar tempo;
-Desviar o olhar ou olhar para a janela;
-Folhear uma revista;
-Recusar-se a prestar atenção;
-Comer, beber, fumar;
-Criar ou terminar um relacionamento;
-Criar defeitos.
A partir daí, é preciso refletir sobre o que explica esse tipo de comportamento e ir ao encontro dos sujeitos para analisar, no caso concreto, o que está sendo vivenciado por ele e a forma como ele verbaliza isso. As respostas podem ser variadas e devem ser anotadas num caderno, a parte, logo após o encontro. Por exemplo, o sujeito pode afirmar sua resistência a uma dada situação, explicitando-a das seguintes formas: “não adiantaria nada”; “meu marido/mulher (pai, mãe, a sociedade etc.) não iria compreender”; “eu teria de mudar toda a minha personalidade”; “só gente louca vai a psiquiatras”; “eles não conseguiriam ajudar com meu problema”; “eles não saberiam lidar com minha raiva”; “meu caso é diferente”; “não quero incomodar ninguém”; “vai passar sozinho”; “ninguém consegue” etc.
Pode haver negação, enquanto mecanismo de defesa em relação a certas situações, como pode ser evidenciado em afirmações como: “não há nada de errado comigo (contigo)”; “não consigo fazer nada a respeito deste problema”; “deu certo antes”; “de que adianta mudar?”; “se eu o ignorar, talvez o problema desapareça”.
Há que se identificar o medo que se esconde atrás de uma série de falas e atitudes, tais como: “ainda não estou pronto(a)”; “posso falhar”; “eles poderão me rejeitar”; “o que os outros vão pensar?”; “estou com medo de contar a...”; “não quero que ninguém saiba que eu tenho um problema”; “tenho medo de expressar meus sentimentos”; “não quero conversar sobre isso”; “não a tenho energia necessária”; “posso perder minha liberdade”; “é difícil demais”; “não tenho dinheiro agora”; “eu poderia perder meus amigos”; “não confio em ninguém”; “isso pode prejudicar minha imagem”; “não sou bom(boa) o bastante” etc.
Os relatórios do Serviço Social servem para evitar falhas de memória, registrar quem procurou o atendimento, favorecendo o acompanhamento da situação do usuário e possibilitando a supervisão e a avaliação do processo desenvolvido junto a este.
O registro de uma entrevista, via de regra, contém dados de identificação do usuário numa folha de rosto, o desenvolvimento da situação que envolve o mesmo e os demais atendimentos realizados e o sumário (resumo de tudo o que foi dito). Cabe lembrar aqui a crítica feita por Veloso (1995), para quem a “folha de rosto” é mais um instrumento de controle, disciplina, de intromissão na vida dos sujeitos, do que propriamente uma ajuda efetiva através de uma prática profissional competente e de qualidade.
O relatório de uma entrevista deve conter uma descrição objetiva, com anotações sobre quem encaminhou o usuário ao Serviço Social, a linguagem, a maneira de falar e de se comportar do usuário (quando significativas). A descrição da problemática deve ser vista do ponto de vista do usuário, contendo as circunstâncias que o caracterizam (o que ele pensa sobre o problema e seus sentimentos em relação a isso; as tentativas que ele fez para resolvê-lo; e como ele encara o fato de estar pedindo auxílio). O registro deve acontecer após o atendimento oferecido e as reações do usuário a isto. Registram-se também os fatores externos como pessoas ligadas à situação e, por fim, as modificações observadas na atitude do usuário ou na situação, como modo de favorecer à tomada de decisões (por parte do usuário e por parte do assistente social) no tempo estipulado para este fim.
Os tipos de documentos (de correspondência) mais utilizados pelo Serviço Social no contexto institucional são: cartas aos usuários, lembrando-lhes que eles têm direitos e deveres no exercício de sua cidadania, podendo comparecer, quando o desejarem a entrevista, a reunião, a palestra ou a algum outro evento de relevância para as suas vidas. Também podem fornecer informações sobre os direitos sociais, contidos nas políticas públicas e os critérios de acesso e de denúncia, caso os mesmos sejam violados no âmbito institucional e/ou fora deste. Nesse caso, visitas institucionais nos possibilitam acessar e reconhecer os recursos comunitários e institucionais que dão suporte à ação profissional.
Também podem ser endereçadas cartas a órgãos governamentais ou administrativos, fazendo pedidos de informação, ou informando dados relevantes sobre as sistematizações feitas no âmbito das políticas públicas, que reflitam sobre as manifestações da questão social, os níveis de desigualdade social e o perfil da população usuária de determinados serviços, como forma de fomentar possíveis parcerias ou mesmo argumentar a necessidade de fiscalização da garantia de direitos profissionais e/ou dos usuários no âmbito das políticas públicas (envolvendo órgãos como a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, o Ministério Público, Conselho Regional/ Federal de Serviço Social, os Conselhos de Direitos e Políticas Públicas etc.). Isso deve se dá mediante a exposição dos elementos mais significativos da situação vivenciada no âmbito da instituição, observações e análises, citando inclusive argumentos fundamentados em legislações, regulamentações e resoluções. Isso supõe conhecimento das mesmas.
Há cartas elaboradas pelo assistente social a outros assistentes sociais, que podem ser da mesma instituição ou não, sempre tendo caráter confidencial, porque geralmente é relação à situação de algum usuário, com pedido de colaboração ou informação.
O pedido de informação é feito através de um papel de circulação interna (só na instituição), não é verbal; e deve ser copiado e assinado por quem o receber no âmbito institucional, devendo ser arquivado em local seguro, podendo servir futuramente de comprovante em qualquer processo envolvendo o profissional.
O parecer é uma informação mais longa, mais substanciosa que a simples informação, porque define uma situação. Trata-se de uma opinião técnica, sobre uma determinada situação, geralmente requisitada por outros profissionais ou por autoridades das mais diferentes áreas, como do judiciário, da saúde, da previdência, da educação, entre outras.
Outros documentos que precisam ser conhecidos, no âmbito institucional, são:
-Memorando: utilizado pela chefia de seção ou autoridade semelhante para fazer advertência, transferir funcionários, pedir algum auxílio para a execução de tarefas referentes ao projeto em execução;
-Circular: é o meio de correspondência oficial, pela qual a autoridade superior se dirige, ao mesmo tempo, a várias repartições ou em sentido mais restrito; é instrução escrita, de caráter geral;
-Ata: é o resumo escrito dos fatos e ocorrências, resoluções e decisões de uma assembléia, sessão ou reunião;
-Ofício: correspondência trocada pelos diretores de repartições e outras autoridades, não em seu nome pessoal, mas em função do cargo que ocupa. Além das repartições, se correspondem por ofício pessoas jurídicas de direito privado, como agremiações esportivas ou recreativas, associações filantrópicas, etc.
Quando somos capazes de decodificar um conjunto de questões que se colocam em nossa prática, num determinado momento, certamente somos capazes de descobrir o extraordinário sobre o ordinário e sobre o trivial cotidiano. Para tanto, precisamos, antes de tudo, elaborar conscientemente nossa posição e discernir o que permitimos que os outros fizessem conosco (no cotidiano das instituições em que trabalhamos) e o que fazemos disso, porque não somos objetos de poder, tão somente. Somos também sujeitos desse poder, ainda que muitas vezes não lidemos com ele de forma consciente. Reverter o curso de nossa história, mudar a trilha depende de nós, das escolhas que nós fazemos – afinal, somos livres para decidir nossas vidas.
I-Considerações finais:
Que escolhas temos que fazer para uma nova experiência no Serviço Social? Quais são as “possibilidades ocultas” nos próprios limites que enfrentamos? O que ainda não foi partilhado na construção da técnica, na manipulação do instrumento, na elaboração do saber, que nos desperta a reconstrução de nosso objeto de intervenção? Objeto este que se manifesta empiricamente, que pode ser elaborado teoricamente e particularizado no cotidiano de nossa inserção profissional, dando legitimidade a nossa identidade em construção.
A sistematização tem como ponto de partida a busca de referenciais teórico-metodológicos, que orientarão o estudo das situações, prevendo seus limites e suas possibilidades, propondo objetivos, definindo estratégias de ação, com re-conhecimento do objeto de intervenção profissional e dos resultados que vão sendo alcançados a cada momento. Isso pressupõe um estudo apurado das demandas sociais, institucionais e profissionais, com o foco voltado para a reconstrução do objeto da intervenção profissional (Baptista, 2000).
Para Netto (1989, p. 150), a sistematização da prática traz para a profissão a possibilidade de otimizar sua própria intervenção prática, organizando e generalizando a experiência dos assistentes sociais e cristalizando pautas de procedimento profissional, reconhecidas como tais e transmissíveis via formação institucional. Por outro lado, é um passo necessário para o embasamento profissional, na medida em que viabiliza o movimento de constituição de uma elaboração teórica particular ao objeto sobre o qual incide a ação profissional.
Estamos falando do Serviço Social como uma profissão que tem por base uma ação contínua sobre um conjunto de situações, em um determinado momento histórico, que está envolvida por atos decisórios, ordenados em momentos definidos e baseados em conhecimentos teóricos, científicos e técnicos. Somos desafiados por uma complexidade de problemas que exigem de nós não apenas reparações e arranjos institucionais, mas, sobretudo conhecimento profundo de sua origem e desenvolvimento no campo das relações sociais, políticas, econômicas e culturais e da intenção dos que os abordam.
Temos acesso, no âmbito do Serviço Social, a uma série de dados empíricos, relacionados às condições de vida e de reprodução da população, à implementação cotidiana das políticas sociais, às características culturais e políticas dos diversos segmentos sociais. Podemos passar anos sem trabalhar esses dados, sem investigar, sem sistematizar e sem produzir conhecimentos sobre os mesmos.
No entanto, interpretar a realidade da qual fazemos parte, juntamente aos sujeitos usuários do Serviço Social, se constitui um processo interventivo, que deveria nos demandar um conhecimento a priori dessa mesma realidade, como forma de ressignificar espaços; pensar coletivamente alternativas de enfrentamento da questão social; redescobrir potencialidades; associar experiências; buscar construir identidades coletivas, respeitando a diversidade, no campo da igualdade jurídico-política, dando visibilidade às fragilidades para tentar superá-las; desvendar bloqueios, contradições, processos de alienação; revigorar energias, vínculos, potencial organizativo, reconhecendo espaços de pertencimento, através de vínculos formais e informais de cidadania. Mas, sem conhecimento, pouco ou nada podemos de fato. Isso porque todas essas finalidades só serão alcançadas quando o assistente social se debruçar sobre os dados e informações que gera, através de uma série de procedimentos interventivos (entrevistas, reuniões, visitas domiciliares, etc.), para organizá-los e analisá-los, a partir de uma postura crítico-investigativa.
A sistematização recobra a dimensão intelectual da atividade profissional, na medida em que põe em marcha uma reflexão teórica sobre alguma dimensão da experiência, podendo reordená-la, colaborando para que novas técnicas sejam operacionadas em consonância aos objetivos propostos e ao aporte teórico-metodológico.
Talvez seja preciso demarcar aqui que, na perspectiva dialético-crítica, a centralidade é atribuída à finalidade e não ao instrumental em si mesmo. Marx (1993, p.12)já havia alertado para o fato de que é na práxis que o homem deve demonstrar a verdade, a realidade, o poder e o caráter terreno de seu pensamento.
A sistematização pode significar muitas coisas para o assistente social, desde autonomia até legitimidade no espaço em que atua, passando, logicamente, pelo reconhecimento dos limites, avanços e contribuições efetivas do Serviço Social no processo de construção da cidadania. O importante é construir, no âmbito da própria rotina institucional, espaço para investigação e socialização de experiências, que mostre os procedimentos mobilizados como potencializadores e problematizadores das questões relativas ao trabalho do assistente social.
Por trás de tudo isso está, logicamente, uma concepção de profissão, de instituição e de sociedade que, do nosso ponto de vista, é tensionado por necessidades e interesses diversos. A direção a ser dada a sistematização dos dados e informações reforça um determinado projeto de manutenção ou de transformação das relações entre assistente social e usuário da política social e da instituição, entre estes e a instituição, entre estes e a sociedade, entre estes e o Estado. Ao problematizarmos estas relações, devemos estar prontos para o debate e o embate que temos que travar e enfrentar as conseqüências objetivas e subjetivas nestas relações que instituímos de fato, quando damos início ao processo de sistematização da prática. A clareza disso deve acontecer do ponto de vista teórico, político e ético.
Como podemos analisar, pode existir, nos procedimentos interventivos do assistente social, a predominância de um dispositivo informacional fechado e mutilador de um efetivo debate e embate no processo grupal. Nesse caso, há um tipo de “participação consentida”, na medida em que os discursos servem mais para a confirmação e o reforço da ideologia instituída e veiculada pelo assistente social. (Veloso, 1995).
Para esta autora, o uso de estratégias e recursos técnico-operativos deve permitir a coexistência da concórdia e da discórdia, do consenso e do dissenso. É preciso transformar o âmbito profissional num espaço onde se dê um processo efetivo de negociação, tensão e resistência.
A produção e a reprodução de idéias e valores, ideologias, culturas, representações morais não são construídas fora dos espaços das condições de vida e de trabalho das classes.
Precisamos ter claro que nossa memória tanto pode acompanhar quanto resistir às mudanças. O fazer ou não fazer a sistematização de nossa prática é uma decisão nossa, mas não podemos perder de vista a natureza interventiva do Serviço Social, pois a memória de nossa profissão não registra tão somente o que aconteceu no passado, como também aquilo que deixou de acontecer, mas também aquilo que poderia ou deveria ter acontecido.
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Profa. Dra. Isabela Sarmet de Azevedo
I-Introdução
Faz parte dos objetivos desta produção, situar o significado sócio-histórico do instrumental técnico-operativo do Serviço Social, pela adoção de uma perspectiva analítica, histórica e teórica, que permita apreendê-lo na sua condição de parte da intervenção do Serviço Social nas relações sociais e não como um arsenal de instrumentos e técnicas aplicáveis de forma padronizada.
Enquanto professora da disciplina de Instrumentos e Técnicas no Departamento de Serviço Social de Campos, do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal Fluminense, desenvolvemos, nos últimos anos, atividades de Assessoria ao Trabalho do Assistente Social, juntamente ao Conselho Regional de Serviço Social, Seccional Campos.
Atendendo às demandas da categoria profissional de nossa região, temos observado as dificuldades que alunos e profissionais de Serviço Social têm no sentido de explorar os instrumentos e as técnicas. Isso se deve, entre outras coisas, ao fato de que é intrínseca relação destes com as relações constituintes e constitutivas do Serviço Social.
Neste semestre, dando vigor as atividades de ensino, pesquisa e extensão da Universidade, introduzimos projetos que permitem resgatar, no âmbito da formação profissional, a dimensão técnico-operativa do Serviço Social. Estamos nos referindo ao projeto de pesquisa, denominado Desvendando instrumentos e técnicas no Serviço Social: a adoção de uma política de trabalho e a garantia de um serviço público de qualidade e ao projeto de extensão, intitulado Legislação social, políticas públicas e exercício profissional: estudo para concursos públicos e atividades de assessoria para fins acadêmico-profissionais. Tais projetos compõem a estrutura das atividades oferecidas pelo Grupo de Assessoria ao Trabalho do Assistente Social – um grupo que vem oferecendo atividades de capacitação aos profissionais de Serviço Social, já há alguns anos, também em parceria ao Conselho Regional de Serviço Social/Seccional de Campos.
Essas atividades respondem às demandas evidenciadas e, convida-nos, de um lado, a um mergulho na história de nossa profissão – o que explica a razão pela qual os instrumentos e técnicas foram, pouco a pouco, negligenciados no debate contemporâneo da profissão – e, de outro lado, a necessidade de assessorar os assistentes sociais já formados e em formação, para que assumam a apropriação teórico-prática da legislação social – que regulamenta o conjunto dos direitos e deveres de cidadania – no âmbito das políticas públicas e sociais, identificando-os, bem como os modos pelos quais podem ser acessados, dando visibilidade, em suas práticas e registros, às possíveis violações cotidianas e os recursos cabíveis no âmbito institucional (nos Conselhos, no Ministério Público, na Defensoria Pública e outros órgãos de fiscalização e controle social).
É preciso ampliar o debate teórico-metodológico do Serviço Social no interior da tradição marxista, num esforço para romper com a herança pragmática e empiricista que permeia o entendimento da técnica no debate profissional, lembrando que nenhuma técnica se define fora de um contexto histórico e de uma opção teórico-metodológica.
Ainda é corrente, entre segmentos conservadores e núcleos da categoria profissional, a tentativa de desqualificar as propostas oriundas desta perspectiva [intenção de ruptura] com a “argumentação” de que são frutos de atividades “estranhas” às “práticas de campo” do Serviço Social. Aqui, mais que em qualquer outra situação, retoma-se o velho refrão segundo o qual, na “prática”, a “teoria” é outra. (Netto, 1990, p.249).
A técnica é a utilização de um saber e não um instrumento auxiliar, neutro, deslocado de um contexto sócio-histórico. Ela é “teoria em atos”, em movimento, que não pode ser vista sob a ótica marcadamente voluntarista, desprovida de um saber teórico.
Os instrumentos são construídos de acordo com as finalidades e o modo de pensar e agir do profissional. Para Santos (2006), há uma especificidade no uso dos instrumentos pelo Serviço Social, a qual precisa ser definida, pensada e trabalhada pelo conjunto da categoria profissional. E ela envolve objetivos, princípios, objetos, demandas e direção social.
A instrumentalidade significa o conteúdo que antecede a escolha dos instrumentos e técnicas e responde as seguintes questões:
O que fazer?
Onde fazer?
Por que fazer?
Para que fazer?
Como fazer?
A instrumentalidade sofre determinações da dinâmica social da qual emergem as demandas para as instituições nas quais trabalha o assistente social.
Assim, o estudo dos instrumentos e técnicas não limita o instrumental à condição de repertório interventivo, a um rol de instrumentos e técnicas que seriam suficientes para a eficácia da ação. Nossa perspectiva teórica aponta a insuficiência de uma visão de instrumental técnico-operativo restrito à habilidade e ao manejo desse repertório, pois esta é uma concepção que isenta o instrumental de suas relações mais amplas.
As técnicas não são portadoras de uma capacidade imanente para alcançar determinados resultados, pois são mobilizadas a partir das finalidades postas em face da realidade a ser transformada. Elas não trazem em si uma dinâmica de aplicação que, se seguida á risca, proporciona a consecução daquilo que foi planejado.
Nesse sentido, o presente material didático tem o objetivo de não só discutir a sistematização da prática, mas, fomentar novas posturas ético-políticas e teórico-metodológicas diretamente relacionadas à operacionalidade do Serviço Social.
I-O Serviço Social e a sistematização da prática:
Trata-se, na verdade, de um esforço crítico, de natureza teórica, sobre a condução da atividade profissional, constituindo-se como um esforço problematizador sobre suas diferentes dimensões em relação às expressões cotidianas da realidade social, mediatizadas pelas políticas sociais, pelos movimentos sociais, pela forma de organização do trabalho coletivo nas instituições e, sobretudo, pelas disputas societárias. (Almeida, 2006, p.403).
O assistente social atua no campo das necessidades sociais, que se transformaram, ao longo da história, em dimensões da questão social, tais como se manifestaram na sociedade capitalista, como expressões das desigualdades econômicas, políticas, culturais e sociais. Nesse sentido, atingiram “visceralmente a vida dos sujeitos numa ‘luta aberta e surda pela cidadania’ (Ianni, 1992), no embate pelo respeito aos direitos civis, sociais e políticos e aos direitos humanos” (Iamamoto, 2005, p.19).
A natureza do trabalho do assistente social é marcada pela sua inserção nas instituições prestadoras de serviços sociais, vinculados às políticas sociais, onde se volta à regulação das relações sociais e não diretamente à produção material.
O trabalho profissional do assistente social cria as condições necessárias ao processo de reprodução social, uma vez que incide sobre as condições de vida dos trabalhadores (através de bens e serviços complementares à sua sobrevivência); produz efeitos ideológicos que reforçam ou não a aceitação das condições de compra e venda da força de trabalho e atende às necessidades de normatização e controle dos comportamentos sociais.
Ao longo de sua história, o Serviço Social tem conseguido forjar um conjunto de procedimentos de registro e avaliação de suas atividades, desde relatos de suas abordagens individuais ou grupais até reuniões de equipe, se ocupando de produzir informações e organizar processos em que a sua prática pudesse ser objeto de reflexão.
Embora fosse regular o procedimento de registrar dados, não houve a construção de uma cultura profissional alimentada por atividades investigativas, com sistematização do trabalho no Serviço Social.
Para Almeida (2006, p. 401), os procedimentos de registro acabam por configurar a burocracia institucional onde atua o assistente social e as reuniões de equipe carecem de objetividade, porque estão ausentes os instrumentos necessários aos processos de reflexão e avaliação do trabalho.
Sabemos que políticas, estratégias, diretrizes (princípios normativos que dão unidade à ação, englobando diferentes aspectos que compõem o trabalho) e prioridades institucionais estão, a todo o momento, se plasmando na demanda que recebemos, mas esta somente existe porque uma problemática desafia a ação institucional, e está inscrita no campo das questões mais amplas da conjuntura municipal, estadual, nacional e internacional. Não podemos desprezar, no entanto, que a demanda institucional também é determinada historicamente pelos modos de ser e de aparecer das relações na sociedade capitalista, que tem particularidades à brasileira, que se expressam de muitas formas: “jeitinho brasileiro”, “toma-lá-dá-cá”, “política do favor e do compadrio”, do “você sabe com quem está falando?” etc.
Em vista disso, as normas institucionais têm um sentido e uma finalidade, não sendo procedimentos descritivos apenas do modo de funcionamento da organização. Elas fundamentam e sustentam, por assim dizer, uma determinada ideologia (que, como sabemos, oculta e dissimula a realidade dos fatos, contribuindo para determinadas formas de dominação, quando não desvendadas e problematizadas pela reflexão cotidiana). Portanto, não podemos ignorar que os procedimentos, os dispositivos e o discurso desses dispositivos não se separam da maneira como são vividos pelas pessoas e dos valores com os quais elas estão engajadas e comprometidas. Ou seja, os dispositivos operacionais se vinculam à ideologia, como forma das pessoas interiorizarem determinadas condutas, as legitimando, bem como aos princípios que as regem.
(...) tem-se claro que as normas institucionais são construídas e operadas pelos sujeitos, portanto, nem sempre assimiladas e assumidas da mesma forma – elas podem ser aprofundadas ou subvertidas: relações independentes das formais podem ser estabelecidas, trabalhos alternativos podem emergir dentro da instituição e, por sua competência, constituir grupos de referência que a ultrapassem.
Nesse sentido, é fundamental analisar a dinâmica interna e a estrutura das relações da instituição na qual se opera o projeto. A análise da equipe – seus valores, suas características – irá permitir identificar situações que podem tanto potencializar o alcance de seus resultados. (Batista, 2003, p. 56)
Embora a leitura sobre a realidade seja o ponto de partida para subsidiar as decisões tomadas sobre as manifestações da questão social, canalizando as demandas da população para projetos, programas e planos no âmbito institucional, ainda não conseguimos algumas conquistas importantes como condições dignas de trabalho, para atender o nosso usuário com dignidade, que nos permitam construir vínculos de pertencimento e de reconhecimento civil, diante de sua problemática. Como formular o seu drama cotidiano em linguagem pública de direitos? Como fazê-los acreditar nas instituições, que os submetem a rituais vexatórios, que os expõem publicamente?
Por exemplo, num relatório ou parecer social, é preciso evitar juízos de valor que exponham os usuários, desnecessariamente, porque isso atenta aos princípios e diretrizes de nosso Código de Ética Profissional. É preciso lembrar que, no modo tradicional de se agir profissionalmente, perdia-se a referência concreta no sujeito – a população entrava como “usuária”, “demandante”, “clientela”, mas nunca como ser histórico. Agora, a população, em tese, é personagem central do processo, podendo inverter a tendência clássica à burocratização e ao conservadorismo das decisões. Portanto, qualquer entrevista, reunião, grupo, palestra, abordagem ou encaminhamento do Serviço Social deve procurar ser benéfica a essa população, não a julgando, nem a condenando por seus comportamentos alienados e alienantes, mas procurando despertá-la à reflexão sobre sua situação, através de formas menos destrutivas de se relacionar em sociedade.
Para lembrarmo-nos das nossas responsabilidades éticas, Portelli (1997, p.14) afirma: “Tenho um compromisso comigo mesmo de não usar o material da entrevista de formas que possam prejudicar a pessoa de quem o obtive, nem de a ela desagradar”. Quão grande sabedoria está contida nessas palavras, pois é preciso ter a vontade utópica e avontade de saber “como as coisas realmente são”, equilibradas por uma atitude aberta às muitas variáveis de “como as coisas podem ser”.
A inércia dos dados fichados se mistura ao intenso fluxo de informações e, longe de contribuírem para a qualificação dos serviços, parecem ser um “arquivo morto”. No entanto, nós sabemos que eles estão vivos e somente o contato entre o significado da linguagem das pessoas e a realidade concreta é que nos permite o acesso aos nexos de nossa intervenção, indo para além da prática instituída. Ter uma visão totalizadora da problemática que nós enfrentamos, organizando nossa rotina para, em algum momento do dia, pensar sobre o que estamos fazendo é fundamental nesse sentido.
Porém, não dispomos de computadores que nos permitam informatizar os dados contidos nas fichas dos usuários, que são fontes ricas de conhecimento, mas acabam “esquecidos” num arquivo, cuja organização não facilita muito o trabalho de sistematização, porque fichas antigas e atuais se misturam. A quem interessa isso?
A reflexão voltada, reiteradamente, aos dados coletados através de entrevistas, questionários e formulários pode nos conduzir à análise e ao estudo de alternativas, à superação e à reconstrução de conceitos e práticas de diferentes disciplinas, com a explicitação, quantificação e qualificação dos fatos sociais, sobre os quais precisamos projetar nossas ações.
Ao mesmo tempo em que refletimos, estamos decidindo, escolhendo as alternativas, determinando os meios através dos quais alcançaremos nossos objetivos e projeções, estipulando prazos para isso.
Quando “deixamos o barco correr”, não tendo clareza sobre onde começa e onde termina o que estamos fazendo e, simplesmente, não nos determinamos a fazer o que precisa ser feito: a execução das ações projetadas deve se operar em consonância com a reflexão e a decisão que tomamos, seguindo-se de uma nova reflexão sobre os processos e as conseqüências inscritas nas relações de poder, com vistas à sistematização da prática, à luz de uma teoria que a ilumine os caminhos.
I-Desvendando instrumentos e técnicas no Serviço Social: a adoção de uma política de trabalho e a garantia de um serviço público de qualidade.
A transgressão aqui é apreendida como o movimento dialético que compreende o verso e o reverso, a negociação e a luta, avanços e recuos, e não uma visão singularizada da prática social. O que se espera é uma apreensão do caráter contraditório da ação entre o assistente social e a população, na medida em que a sua prática é polarizada por interesses de classe, o que faz da instituição um “palco da luta de classes. (Veloso, 1995).
Há confrontos e diferentes maneiras de enfrentá-los no âmbito institucional. É preciso reconhecer as forças sociais que polarizam o nosso projeto, mas que isso não nos gere imobilismo. Podemos fazer um estudo reiterado e crítico das práticas cotidianas, encontrando o fio condutor para novas práticas. Embora isso não seja permitido institucionalmente, precisa ser conquistado profissionalmente, cotidianamente.
Esta conquista se materializa pela documentação, não a institucional (para quem só se importa com as estatísticas), mas a feita pelo profissional, que lhe permite o registro da ação desenvolvida, através de relatórios descritivos (e não sintéticos1) das entrevistas, das reuniões, visitas, abordagens, encaminhamentos e outros instrumentos desenvolvidos na relação com os usuários, com a instituição onde se trabalha e com as outras com quem estabelece possíveis parcerias. Um diário de observações (ou caderno de campo) poderá ser rico para avaliações subseqüentes, e não deve ser deixado à vista de outros profissionais, mas mantido em sigilo, como modo de preservar-se nessa relação institucional.
Segundo Mioto (2001, p.146), o assistente social que realiza um estudo social, o faz, em geral, por solicitação de outros profissionais ou autoridades das mais diferentes áreas (como os do Ministério Público, por exemplo) e o utiliza como um instrumento para conhecimento e análise da situação vivida por determinados sujeito ou grupo de sujeitos sociais, para finalmente emitir uma opinião técnica a respeito.
O estudo social consiste, portanto, na articulação de vários instrumentos, a saber: a entrevista (individual ou coletiva), a observação, a visita (domiciliar ou institucional) e a análise de documentos.
Todo o processo de abordagem dos sujeitos (entrevistas, observações, análise de documentos) deverá ser documentado, preferencialmente por meio de relatórios descritivos e de outras formas de observação (quadros, diários de campo). A documentação constitui a base para a efetivação da análise da situação e da elaboração do laudo social. (Mioto, 2001, p.154).
Os registros feitos devem ser apreciados sobre o ponto de vista da redação, da clareza e precisão dos argumentos, das referências que o profissional se apropria teórico-metodologicamente, na legislação social, institucional e/ ou profissional. É preciso verificar se o documento feito contém a inter-relação e coerência entre seus diferentes itens, se o que se prioriza na descrição e análise trata-se de um problema significativo (se realmente for, podemos explicar por que o é; e fazer uma oportuna abordagem sobre ele e apresentar a alternativas consistentes para o que está sendo abordado, com justificativas plausíveis para isso).
O trabalho de campo é um experimento de igualdade, baseado na diferença. É preciso “que sempre exista uma linha” de diferenças que, depois de transposta, torne-se plena de significado, mas é necessário que exista também uma “linha”, segundo a qual possamos comunicar o desejo de encontrar um terreno e uma linguagem comuns que possibilitem a troca. (Portelli, 1997, p.19).
Na maioria das vezes, esquecemo-nos que o poder, o status e o prestígio reais ou imaginários, oferecidos por nossa profissão interferem no desempenho do trabalho. Devemos criar um ambiente propício para que as pessoas possam se manifestar, respeitando seus próprios limites e possam tomar suas próprias decisões. Não conseguiremos isso ignorando as diferenças que nos tornam desiguais, nem paternalisticamente, simulando uma igualdade que inexiste.
Para Sarmento (1994), os assistentes sociais são entrevistadores por excelência. Isso quer dizer que, quando entrevistamos, mantemos um contato pessoal, de caráter confidencial com o usuário, visando acumular dados e informações que, quando sistematizados, poderão subsidiar estudos, elaborações e procedimentos que sirvam de apoio ao enfrentamento da questão social, no campo das políticas públicas e sociais.
Há aí uma clara relação entre o assistente social e o usuário, envolvendo aspectos objetivos e subjetivos. Esses aspectos contextualizam a situação do usuário, compreendendo as relações que envolvem sua realidade, bem como a situação particular que gerou a necessidade da entrevista. Portelli (1997, p.21) afirma que quase todas as pessoas são suficientemente perspicazes para discernir quando alguém está tentando seduzi-las ou usá-las.
A abordagem ética ou cortês é cientificamente compensadora: boas maneiras e respeito pessoal constituem um bom protocolo para trabalho de campo. Se ouvirmos e mantivermos flexível nossa pauta de trabalho, a fim de incluir não só aquilo que acreditamos querer ouvir, mas também o que a outra pessoa considera importante dizer, nossas descobertas sempre vão superar nossas expectativas.
Mostre-se aberto, fale sobre você, responda a perguntas (se as fizerem). Por que devo eu esperar que os outros falem de sua vida se eu não me mostro disposto a contar algo a respeito da minha? (Idem, p.22)
O assistente social, através da entrevista, tem o objetivo de abordar o sujeito envolvido numa situação sobre a qual ele, enquanto profissional, tem que emitir um parecer e decidir sobre o acesso a um recurso institucional. Como esta relação envolve poderes e saberes diferenciados, o assistente social deve se preparar a entrevista, a fim de que o usuário configure a relação ali instituída, do modo menos diretivo possível. Isso não quer dizer que, a todo tempo, diremos ao nosso interlocutor que ele tem sempre a razão. Essa é a pior forma de paternalismo. Nas entrevistas ou nas abordagens informais, podemos com tranqüilidade indagar – “você tem certeza?” – ou afirmar – “não sei se concordo com você”, “outras pessoas já me deram versões diferentes desse episódio”. Essas contradições, quando num contexto de uma entrevista, abordagem ou reunião, se feitas de forma polida e bem-educada, podem dar lugar a comentários mais longos, com explicações e análises que, em outras circunstâncias, não teríamos conhecimento; ou podem fazer com que o interlocutor sinta-se valorizado na diferença do seu ponto de vista.
Pode existir uma incompatibilidade entre diferentes interpretações. Embora não tenhamos a obrigação de relatar com a maior fidelidade possível as palavras que os entrevistados realmente proferiram, a responsabilidade que temos em relação a eles não significa estarmos sempre de acordo com o que dizem. (Portelli, 1997, p.27)
Cabe ressaltar que, segundo Mioto (2001), as entrevistas poderão ser realizadas individualmente ou com grupos de sujeitos (um casal, uma família, o pai com os filhos), chamadas de entrevistas conjuntas, onde é possível observar e fazer o estudo direto das tramas concretas presentes entre eles e permitindo uma apreensão da dinâmica e da estrutura das relações das famílias e entre determinados membros da família.
Além de viabilizar o encontro dos sujeitos envolvidos direta ou indiretamente na situação, as relações estabelecidas durante a entrevista poderão gerar material relevante para o conhecimento da situação. Segundo Portelli (1997, p.25), muito do que acontece na mente das pessoas, em termos de sentimentos, emoções, crenças, interpretações e, por esse motivo, até mesmo erros, invenções, mentiras constituem à sua maneira, áreas onde se encontra a verdade.
Quanto ao aspecto técnico, vale ressaltar que o profissional precisa de habilidade para saber iniciar, desenvolver e concluir uma entrevista ou qualquer outro procedimento de intervenção. Técnica é algo que se adquire com o passar do tempo, com a prática e com a experiência, mas é algo que não dispensa a teoria. Há o momento certo de fazer ou não determinadas perguntas; há o momento certo de tomar notas.
Quanto a este último ponto, o ideal é, no início de uma entrevista, tomar nota sobre alguns dados pessoais do usuário e ao término desta, quando necessário. Durante a entrevista, deve-se prestar toda atenção no sujeito que a demanda, suas razões, seus sentimentos e atitudes diante das dificuldades, afinal, para ser assistente social é preciso ter um conhecimento sobre a natureza humana (Sarmento, 1994, p.284).
A entrevista utilizada pelo profissional de Serviço Social serve para a obtenção de dados e o conteúdo desta entrevista compõe o processo de diálogo e reflexão estabelecido entre o usuário e o assistente social, sendo, portanto, fundamental para o estudo e o encaminhamento da situação na qual se encontra o sujeito entrevistado. “O pesquisador pergunta e retém seu ponto de vista, e deixa o pesquisado livre para organizar sua resposta” (Delhomme & Meyer, 2002, apud Nunes, 2005, p.208).
Visamos com esse tipo de entrevista acessar o que a pessoa pensa, sente, suas intenções, comportamentos e atitudes, o que ela traz em mente sobre diversos temas, que são significativos e passíveis de serem conhecidos e explicitados (Patton, 1986, apud Nunes, 2005).
Algumas táticas (meios) de entrevista podem ser vislumbradas em nossa ação profissional. A entrevista feita para a coleta de dados e informações é mais formal sistematizada, com um roteiro objetivo, num tempo delimitado (geralmente pelo fluxo das instituições) e há um aprazamento (marcação de entrevista). Já a entrevista de cunho terapêutico é uma conversação mais espontânea, onde não há delimitação de tempo e ocorre uma cartase (desabafo).
A tarefa do assistente social, durante a entrevista, consiste em produzir o máximo de informações relevantes, mantendo o relacionamento profissional no melhor nível possível – proporcionando um ambiente agradável para que o entrevistado se sinta à vontade.
Aquilo que realmente restituímos é uma oportunidade para as pessoas com quem conversamos organizarem seus conhecimentos com maior clareza: um desafio para aumentarem sua consciência, para estruturarem aquilo que já sabemos – processo que começa com a entrevista e continua, à medida que se defrontam com nossas conclusões. Esse processo ocorre mais nas mentes das pessoas do que nos arquivos. Nossa primeira responsabilidade no tocante à restituição é com nosso próprio desenvolvimento e aquele das pessoas com quem encetamos um diálogo, iniciando-se concomitantemente à entrevista. Restituição significa mais do que a devolução de materiais; também se faz necessária, a fim de propor um discurso experimental, uma possível organização, uma gama de interpretações. (Portelli, 1997, p.29-30).
Porém, o que se observa nos bastidores da prática, afirma Veloso (1995), o assistente social tem um papel ativo, já que detém os dados informativos, em contraste com uma posição pouco participativa da população usuária, que ora aparece como respondente das perguntas que lhe são feitas, ora como mera expectante do discurso informacional que lhe é transmitido via ação educativa, através de palestras ou reuniões. Isso imprime um caráter burocratizante e repetitivo a tal ação, desconsiderando a dimensão subjetiva e qualitativa do fazer profissional.
É comum instaurar-se um mecanismo de compulsoriedade à rotina dos serviços institucionais, mediante a passagem obrigatória da população pelo Serviço Social. Nesse contexto impositivo, afirma Veloso (1995), a entrevista de rotina do Serviço Social vem se tornando um espaço desagradável, quando não se resvala para a inconveniência da “invasão de privacidade” da população.
Muito raramente perguntamos ao usuário o que ele pensa sobre a normatização da instituição em que trabalhamos, sobre a entrevista que irá participar e lhe damos esclarecimentos precisos, no que diz respeito aos objetivos profissionais do Serviço Social – o por que, o para que e a quem serve essa entrevista. Há o perigo da entrevista se transformar num interrogatório, de feição policialesca, durante a qual se vasculha a vida pessoal e privada dos sujeitos (Veloso, 1995).
Um questionário fechado, com perguntas objetivas sobre as condições de vida e de trabalho dos usuários - através da coleta de informações meramente quantitativas – inibe a possibilidade de respostas e dificulta o aprofundamento de temas por parte do entrevistado.
Nem sempre fica claro para a população quais são os objetivos desse tipo de entrevista/ interrogatório realizada pelo Serviço Social. Segundo o Art.5º do Capítulo I do Código de Ética Profissional, é dever do assistente social, na relação que mantém com o usuário, esclarecer, no início do trabalho, quanto aos objetivos e a amplitude de sua atuação profissional. Há que se assegurar ao usuário o direito de escolha sobre se quer participar ou não dessa relação que deve ser democrática, entendida como a possibilidade de se trabalhar com e na diferença e não através de uma prática impositiva e autoritária por parte do profissional. (Veloso, 1995).
Há aquele tipo de profissional arrogante, que acredita-se possuidor de uma pseudo-superioridade teórica e política, que atribui a si mesmo o dever de propagar a verdade, de levar a “boa nova ao povo”. Nesta ótica atrofiada, o povo aparece como mero objeto passivo de sua ação profissional de vanguarda.
Segundo Veloso (1995), há na relação entre o profissional e a população algumas distinções importantes, a saber:
Diferentes níveis de representação do real;
Diferentes formas de consciência social;
Uma relação entre sujeitos que atuam em contextos históricos determinados;
Processos que entram em jogo na constituição do sujeito e de sua linguagem (sua interpelação pela ideologia).
Cabe ao assistente social, na condição de sujeito portador de poder (pelo lugar que ocupa na instituição), de um discurso (fruto de sua visão de mundo), veiculado através da linguagem, assumir uma atitude de auto-questionamento constante na relação que estabelece com a população usuária dos serviços sociais.
Numa relação profissional, estão em jogo seus interlocutores, a situação e o contexto sócio-histórico e ideológico. Há, portanto, uma pluralidade de discursos e práticas profissionais.
As ações educativas estão se transformando, segundo Veloso (1995), num regime de procuração e tutela, na medida em que os termos operacionais, as teorias nas quais se assentem o discurso profissional são apenas confirmadas e jamais refutadas.
É preciso assegurar a veiculação das mais diversas ideologias e culturas sobre o objeto da ação educativa. Essa “escuta”, “esse saber ouvir”, é imprescindível no exercício profissional do Serviço Social, que se quer democrático e pluralista.
Ser acolhedor, cordial não é “ser bonzinho”, mas possibilitar a abertura do outro. É preciso tomar cuidado para não entrar demais na intimidade do usuário. É preciso manter o nível de relacionamento profissional, mas com um vocabulário acessível ao nível de entendimento do usuário. O verdadeiro serviço que prestamos a movimentos e indivíduos consiste em fazer com que sua voz seja ouvida, em levá-la para fora, em pôr fim a sensação de isolamento e impotência, em conseguir que seu discurso chegue a outras pessoas e comunidades (Portelli, 1997, p.31).
Cabe ressaltar, no entanto, que, ao longo de todo esse processo, devemos ter em mente o consentimento esclarecido, o direito à privacidade e a proteção do entrevistado contra danos (Denzin & Lincoln, 2003, apud Nunes, 2005, p.219).
“A divulgação de escritos, a transmissão da palavra ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa” exigem sua autorização, conforme consta no Código Civil, no item Dos direitos da personalidade. (Brasil, 2002). Também o Ministério da Saúde (Brasil, 1996) obriga a utilização do termo de consentimento em pesquisas envolvendo seres humanos.
Não se pode desconsiderar os diferentes espaços e situações em que se materializa a prática do assistente social. Também não se pode generalizar e universalizar a conduta profissional através da entrevista.
Para o usuário, a entrevista tem alguns custos, a saber: ter que se expor para pedir algo, estar inseguro (sentir-se humilhado, inferior em relação a quem pede), reviver algum momento traumático, podendo esquecer algum dado importante. Mas, por outro lado, há recompensas nesse encontro, tais como: ser reconhecido como pessoa com direitos (quando o assistente social sabe informá-los), ter expectativas preenchidas, ter a oportunidade de fazer uma cartase (um desabafo das dificuldades pessoais).
O importante é saber ouvir, saber perguntar, interpretar, conduzir a entrevista e fazer uma pausa para reflexão. Antes de iniciá-la, é preciso escolher os objetivos, o tempo destinado a ela, o local, a situação, com atenção a quem vai participar dela e qual é o papel desempenhado por cada um nessa relação. Preparada a entrevista, devemos nos apresentar, indicar o que a instituição pretende com esta entrevista, explicando qual é a sua finalidade, ou seja, o porquê esta pessoa vai ser entrevistada. A garantia do anonimato pode ser um importante elemento em certas incursões feitas pelo assistente social.
Há, portanto, condições a serem cumpridas ao longo da entrevista, a saber:
O entrevistado aceita responder às questões;
Compreende as questões;
Possui as informações ou é capaz de acessar a memória para obtê-las e está motivado;
Aceita responder e é capaz de responder no enquadre previsto pelo profissional.
As questões precisam ser livres de julgamento de valor ou de atribuição de causalidade e responsabilidade. Devem conter elementos que o pesquisado conheça ou se dirigir as suas opiniões, crenças, intenções comportamentais, ou ainda à declaração de comportamentos passados e atuais; podendo propiciar ao entrevistado uma auto-descrição ou recordações de fatos.
A formulação das questões deve obedecer às seguintes observações:
Frases curtas, claras, simples, com vocabulário preciso e adaptado ao nível de compreensão do entrevistado;
Que se formule uma questão de cada vez – mais de uma deixa o entrevistado sem saber a qual responder;
Cuidar para que a questão não seja tendenciosa, pois a resposta não permite, de fato, que se conheça a percepção, os pressupostos do entrevistado;
O uso de exemplos pode dificultar ao entrevistado que responda sem ficar preso ao conteúdo do exemplo;
Evitar o uso de termos técnicos, verbos negativos ou positivos, pois isso pode orientar a resposta;
Também ter o cuidado com palavras muito carregadas emocionalmente ou aquelas extremas “nunca”, “sempre”, “ninguém”.
A condução da entrevista requer o preparo, a colocação de cadeiras ou poltronas, nem muito perto nem muito longe.
Para motivar o entrevistado, pode se usar as seguintes táticas:
-Animar por gestos e expressões, tais como “hum, hum, sim...” e auxiliar a elaborar a verbalização: “E então?” ou “Há algo mais que você gostaria de dizer sobre isso?” Ou ainda: repetir, sem formular uma pergunta direta, expressões do entrevistado, de modo a fazê-lo continuar em sua narrativa.
-O entrevistado, por vezes, precisa recapitular parte do que falou, buscando esclarecimento sobre algo que não compreendeu ou que parece contraditório.
-É necessário saber quando mudar de tema.
Todas essas maneiras de conduzir a entrevista dependem da capacidade empática do próprio assistente social, que deve ainda tolerar silêncios, proceder com seu roteiro de forma sutil, sem que a entrevista se transforme num interrogatório. Precisa também de sutileza para checar incongruências, mantendo-se livre de fazer julgamentos sobre o entrevistado e o que ele veicula.
O assistente social deve estar atento aos pontos trazidos pelo usuário, mantendo-se capaz de ler nas entrelinhas, cuidando das incoerências, avaliando as respostas. Para finalizar, é conveniente perguntas ao entrevistado se ele deseja tratar de mais alguma coisa que pense e que não tenha sido trabalhada. E agradecer ao usuário pela sua participação.
Outro importante instrumento que acompanha a entrevista é a observação. Ela é utilizada para poder analisar, coletar, conhecer e reconhecer as diferenças e serve para:
-Para observar a vida do entrevistado em seu ambiente social, em sua interação com seus familiares ou pessoas do cotidiano;
-Para notar como o indivíduo entrevistado reage às perguntas, o tom de voz, as hesitações e as atitudes para com o entrevistador;
-Para observar se o entrevistado age realmente como diz ao entrevistador.
Para Mioto (2001), é importante observar:
-a pessoa antes do acontecimento;
-o acontecimento;
-voltar a entrevistar a pessoa após o acontecimento;
-a observação vai ser sempre seletiva e parcial;
-o assistente social é um observador participante, mas deve cuidar para que seus juízos de valor (seus preconceitos) não interfiram no andamento da entrevista ou do procedimento que desenvolve;
-a observação não pode estar em todos os ângulos possíveis e imagináveis.
Ao retomarmos os dados levantados numa entrevista, numa abordagem, reunião, grupo ou na execução de qualquer outro procedimento interventivo, num movimento de sistematização da prática, podemos ainda observar e analisar o modo como resiste a uma situação. Existem, é claro, “pistas não-verbais”. Nossas ações, freqüentemente, mostram nossa resistência:
-Mudar de assunto;
-Sair da sala;
-Ir ao banheiro;
-Chegar atrasado;
-Ficar doente;
-Adiar;
-Fazer qualquer outra coisa;
-Ocupar-se;
-Desperdiçar tempo;
-Desviar o olhar ou olhar para a janela;
-Folhear uma revista;
-Recusar-se a prestar atenção;
-Comer, beber, fumar;
-Criar ou terminar um relacionamento;
-Criar defeitos.
A partir daí, é preciso refletir sobre o que explica esse tipo de comportamento e ir ao encontro dos sujeitos para analisar, no caso concreto, o que está sendo vivenciado por ele e a forma como ele verbaliza isso. As respostas podem ser variadas e devem ser anotadas num caderno, a parte, logo após o encontro. Por exemplo, o sujeito pode afirmar sua resistência a uma dada situação, explicitando-a das seguintes formas: “não adiantaria nada”; “meu marido/mulher (pai, mãe, a sociedade etc.) não iria compreender”; “eu teria de mudar toda a minha personalidade”; “só gente louca vai a psiquiatras”; “eles não conseguiriam ajudar com meu problema”; “eles não saberiam lidar com minha raiva”; “meu caso é diferente”; “não quero incomodar ninguém”; “vai passar sozinho”; “ninguém consegue” etc.
Pode haver negação, enquanto mecanismo de defesa em relação a certas situações, como pode ser evidenciado em afirmações como: “não há nada de errado comigo (contigo)”; “não consigo fazer nada a respeito deste problema”; “deu certo antes”; “de que adianta mudar?”; “se eu o ignorar, talvez o problema desapareça”.
Há que se identificar o medo que se esconde atrás de uma série de falas e atitudes, tais como: “ainda não estou pronto(a)”; “posso falhar”; “eles poderão me rejeitar”; “o que os outros vão pensar?”; “estou com medo de contar a...”; “não quero que ninguém saiba que eu tenho um problema”; “tenho medo de expressar meus sentimentos”; “não quero conversar sobre isso”; “não a tenho energia necessária”; “posso perder minha liberdade”; “é difícil demais”; “não tenho dinheiro agora”; “eu poderia perder meus amigos”; “não confio em ninguém”; “isso pode prejudicar minha imagem”; “não sou bom(boa) o bastante” etc.
Os relatórios do Serviço Social servem para evitar falhas de memória, registrar quem procurou o atendimento, favorecendo o acompanhamento da situação do usuário e possibilitando a supervisão e a avaliação do processo desenvolvido junto a este.
O registro de uma entrevista, via de regra, contém dados de identificação do usuário numa folha de rosto, o desenvolvimento da situação que envolve o mesmo e os demais atendimentos realizados e o sumário (resumo de tudo o que foi dito). Cabe lembrar aqui a crítica feita por Veloso (1995), para quem a “folha de rosto” é mais um instrumento de controle, disciplina, de intromissão na vida dos sujeitos, do que propriamente uma ajuda efetiva através de uma prática profissional competente e de qualidade.
O relatório de uma entrevista deve conter uma descrição objetiva, com anotações sobre quem encaminhou o usuário ao Serviço Social, a linguagem, a maneira de falar e de se comportar do usuário (quando significativas). A descrição da problemática deve ser vista do ponto de vista do usuário, contendo as circunstâncias que o caracterizam (o que ele pensa sobre o problema e seus sentimentos em relação a isso; as tentativas que ele fez para resolvê-lo; e como ele encara o fato de estar pedindo auxílio). O registro deve acontecer após o atendimento oferecido e as reações do usuário a isto. Registram-se também os fatores externos como pessoas ligadas à situação e, por fim, as modificações observadas na atitude do usuário ou na situação, como modo de favorecer à tomada de decisões (por parte do usuário e por parte do assistente social) no tempo estipulado para este fim.
Os tipos de documentos (de correspondência) mais utilizados pelo Serviço Social no contexto institucional são: cartas aos usuários, lembrando-lhes que eles têm direitos e deveres no exercício de sua cidadania, podendo comparecer, quando o desejarem a entrevista, a reunião, a palestra ou a algum outro evento de relevância para as suas vidas. Também podem fornecer informações sobre os direitos sociais, contidos nas políticas públicas e os critérios de acesso e de denúncia, caso os mesmos sejam violados no âmbito institucional e/ou fora deste. Nesse caso, visitas institucionais nos possibilitam acessar e reconhecer os recursos comunitários e institucionais que dão suporte à ação profissional.
Também podem ser endereçadas cartas a órgãos governamentais ou administrativos, fazendo pedidos de informação, ou informando dados relevantes sobre as sistematizações feitas no âmbito das políticas públicas, que reflitam sobre as manifestações da questão social, os níveis de desigualdade social e o perfil da população usuária de determinados serviços, como forma de fomentar possíveis parcerias ou mesmo argumentar a necessidade de fiscalização da garantia de direitos profissionais e/ou dos usuários no âmbito das políticas públicas (envolvendo órgãos como a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, o Ministério Público, Conselho Regional/ Federal de Serviço Social, os Conselhos de Direitos e Políticas Públicas etc.). Isso deve se dá mediante a exposição dos elementos mais significativos da situação vivenciada no âmbito da instituição, observações e análises, citando inclusive argumentos fundamentados em legislações, regulamentações e resoluções. Isso supõe conhecimento das mesmas.
Há cartas elaboradas pelo assistente social a outros assistentes sociais, que podem ser da mesma instituição ou não, sempre tendo caráter confidencial, porque geralmente é relação à situação de algum usuário, com pedido de colaboração ou informação.
O pedido de informação é feito através de um papel de circulação interna (só na instituição), não é verbal; e deve ser copiado e assinado por quem o receber no âmbito institucional, devendo ser arquivado em local seguro, podendo servir futuramente de comprovante em qualquer processo envolvendo o profissional.
O parecer é uma informação mais longa, mais substanciosa que a simples informação, porque define uma situação. Trata-se de uma opinião técnica, sobre uma determinada situação, geralmente requisitada por outros profissionais ou por autoridades das mais diferentes áreas, como do judiciário, da saúde, da previdência, da educação, entre outras.
Outros documentos que precisam ser conhecidos, no âmbito institucional, são:
-Memorando: utilizado pela chefia de seção ou autoridade semelhante para fazer advertência, transferir funcionários, pedir algum auxílio para a execução de tarefas referentes ao projeto em execução;
-Circular: é o meio de correspondência oficial, pela qual a autoridade superior se dirige, ao mesmo tempo, a várias repartições ou em sentido mais restrito; é instrução escrita, de caráter geral;
-Ata: é o resumo escrito dos fatos e ocorrências, resoluções e decisões de uma assembléia, sessão ou reunião;
-Ofício: correspondência trocada pelos diretores de repartições e outras autoridades, não em seu nome pessoal, mas em função do cargo que ocupa. Além das repartições, se correspondem por ofício pessoas jurídicas de direito privado, como agremiações esportivas ou recreativas, associações filantrópicas, etc.
Quando somos capazes de decodificar um conjunto de questões que se colocam em nossa prática, num determinado momento, certamente somos capazes de descobrir o extraordinário sobre o ordinário e sobre o trivial cotidiano. Para tanto, precisamos, antes de tudo, elaborar conscientemente nossa posição e discernir o que permitimos que os outros fizessem conosco (no cotidiano das instituições em que trabalhamos) e o que fazemos disso, porque não somos objetos de poder, tão somente. Somos também sujeitos desse poder, ainda que muitas vezes não lidemos com ele de forma consciente. Reverter o curso de nossa história, mudar a trilha depende de nós, das escolhas que nós fazemos – afinal, somos livres para decidir nossas vidas.
I-Considerações finais:
Que escolhas temos que fazer para uma nova experiência no Serviço Social? Quais são as “possibilidades ocultas” nos próprios limites que enfrentamos? O que ainda não foi partilhado na construção da técnica, na manipulação do instrumento, na elaboração do saber, que nos desperta a reconstrução de nosso objeto de intervenção? Objeto este que se manifesta empiricamente, que pode ser elaborado teoricamente e particularizado no cotidiano de nossa inserção profissional, dando legitimidade a nossa identidade em construção.
A sistematização tem como ponto de partida a busca de referenciais teórico-metodológicos, que orientarão o estudo das situações, prevendo seus limites e suas possibilidades, propondo objetivos, definindo estratégias de ação, com re-conhecimento do objeto de intervenção profissional e dos resultados que vão sendo alcançados a cada momento. Isso pressupõe um estudo apurado das demandas sociais, institucionais e profissionais, com o foco voltado para a reconstrução do objeto da intervenção profissional (Baptista, 2000).
Para Netto (1989, p. 150), a sistematização da prática traz para a profissão a possibilidade de otimizar sua própria intervenção prática, organizando e generalizando a experiência dos assistentes sociais e cristalizando pautas de procedimento profissional, reconhecidas como tais e transmissíveis via formação institucional. Por outro lado, é um passo necessário para o embasamento profissional, na medida em que viabiliza o movimento de constituição de uma elaboração teórica particular ao objeto sobre o qual incide a ação profissional.
Estamos falando do Serviço Social como uma profissão que tem por base uma ação contínua sobre um conjunto de situações, em um determinado momento histórico, que está envolvida por atos decisórios, ordenados em momentos definidos e baseados em conhecimentos teóricos, científicos e técnicos. Somos desafiados por uma complexidade de problemas que exigem de nós não apenas reparações e arranjos institucionais, mas, sobretudo conhecimento profundo de sua origem e desenvolvimento no campo das relações sociais, políticas, econômicas e culturais e da intenção dos que os abordam.
Temos acesso, no âmbito do Serviço Social, a uma série de dados empíricos, relacionados às condições de vida e de reprodução da população, à implementação cotidiana das políticas sociais, às características culturais e políticas dos diversos segmentos sociais. Podemos passar anos sem trabalhar esses dados, sem investigar, sem sistematizar e sem produzir conhecimentos sobre os mesmos.
No entanto, interpretar a realidade da qual fazemos parte, juntamente aos sujeitos usuários do Serviço Social, se constitui um processo interventivo, que deveria nos demandar um conhecimento a priori dessa mesma realidade, como forma de ressignificar espaços; pensar coletivamente alternativas de enfrentamento da questão social; redescobrir potencialidades; associar experiências; buscar construir identidades coletivas, respeitando a diversidade, no campo da igualdade jurídico-política, dando visibilidade às fragilidades para tentar superá-las; desvendar bloqueios, contradições, processos de alienação; revigorar energias, vínculos, potencial organizativo, reconhecendo espaços de pertencimento, através de vínculos formais e informais de cidadania. Mas, sem conhecimento, pouco ou nada podemos de fato. Isso porque todas essas finalidades só serão alcançadas quando o assistente social se debruçar sobre os dados e informações que gera, através de uma série de procedimentos interventivos (entrevistas, reuniões, visitas domiciliares, etc.), para organizá-los e analisá-los, a partir de uma postura crítico-investigativa.
A sistematização recobra a dimensão intelectual da atividade profissional, na medida em que põe em marcha uma reflexão teórica sobre alguma dimensão da experiência, podendo reordená-la, colaborando para que novas técnicas sejam operacionadas em consonância aos objetivos propostos e ao aporte teórico-metodológico.
Talvez seja preciso demarcar aqui que, na perspectiva dialético-crítica, a centralidade é atribuída à finalidade e não ao instrumental em si mesmo. Marx (1993, p.12)já havia alertado para o fato de que é na práxis que o homem deve demonstrar a verdade, a realidade, o poder e o caráter terreno de seu pensamento.
A sistematização pode significar muitas coisas para o assistente social, desde autonomia até legitimidade no espaço em que atua, passando, logicamente, pelo reconhecimento dos limites, avanços e contribuições efetivas do Serviço Social no processo de construção da cidadania. O importante é construir, no âmbito da própria rotina institucional, espaço para investigação e socialização de experiências, que mostre os procedimentos mobilizados como potencializadores e problematizadores das questões relativas ao trabalho do assistente social.
Por trás de tudo isso está, logicamente, uma concepção de profissão, de instituição e de sociedade que, do nosso ponto de vista, é tensionado por necessidades e interesses diversos. A direção a ser dada a sistematização dos dados e informações reforça um determinado projeto de manutenção ou de transformação das relações entre assistente social e usuário da política social e da instituição, entre estes e a instituição, entre estes e a sociedade, entre estes e o Estado. Ao problematizarmos estas relações, devemos estar prontos para o debate e o embate que temos que travar e enfrentar as conseqüências objetivas e subjetivas nestas relações que instituímos de fato, quando damos início ao processo de sistematização da prática. A clareza disso deve acontecer do ponto de vista teórico, político e ético.
Como podemos analisar, pode existir, nos procedimentos interventivos do assistente social, a predominância de um dispositivo informacional fechado e mutilador de um efetivo debate e embate no processo grupal. Nesse caso, há um tipo de “participação consentida”, na medida em que os discursos servem mais para a confirmação e o reforço da ideologia instituída e veiculada pelo assistente social. (Veloso, 1995).
Para esta autora, o uso de estratégias e recursos técnico-operativos deve permitir a coexistência da concórdia e da discórdia, do consenso e do dissenso. É preciso transformar o âmbito profissional num espaço onde se dê um processo efetivo de negociação, tensão e resistência.
A produção e a reprodução de idéias e valores, ideologias, culturas, representações morais não são construídas fora dos espaços das condições de vida e de trabalho das classes.
Precisamos ter claro que nossa memória tanto pode acompanhar quanto resistir às mudanças. O fazer ou não fazer a sistematização de nossa prática é uma decisão nossa, mas não podemos perder de vista a natureza interventiva do Serviço Social, pois a memória de nossa profissão não registra tão somente o que aconteceu no passado, como também aquilo que deixou de acontecer, mas também aquilo que poderia ou deveria ter acontecido.
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