segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mediações....Para quê?

Vanessa Vasconcelos Pereira

Para o Serviço Social se tornam expressivas referências às mudanças no mundo do trabalho, ao papel do Estado e à composição e dinâmica das classes sociais enquanto categorias explicativas dos processos macro sociais que afetam e/ou determinam mudanças na experiência profissional do assistente social. Especificamente, esses impactos ocorrem em dois planos: um, mais visível e imediato, relaciona-se com questões que recaem diretamente sobre o exercício profissional; o outro, mais amplo e complexo, refere-se tanto ao surgimento de novas problemáticas que podem ser mobilizadoras de competências profissionais estratégicas, como à elaboração de proposições teóricas. políticas,éticas e técnicas que possam se apresentar como respostas qualificadas ao enfrentamento das questões que lhe são postas.
Cabe ao Serviço Social, refazer téorica e metodologicamente o caminho entre a demanda e as suas necessidades fundantes, situando-as na sociedade capitalista contemporânea, com toda sua complexidade.

“a profissão de Serviço Social, como tantas outras é determinada socialmente a partir da relação entre divisão social do trabalho e atendimento de necessidades sociais” (MOTTA,p.27,1987)

Assim, as profissões se criam a partir de necessidades sociais e se desenvolvem na medida da sua utilidade social, vindo a institucionalizar práticas profissionais reconhecidas socialmente. Devem ser capazes de problematizar as demandas para apreender o conjunto de mediações que expressam a vinculação entre as “reais necessidades” e as exigências do mercado de trabalho profissional é o passo inicial para a construção dos objetos e objetivos estratégicos da ação profissional. Uma vez que se ater às demandas do mercado de trabalho profissional postas pela reestruturação produtiva é esquecer que:

“as necessidades sociais referidas às demandas são mera aparência que não expressam as necessidades sociais reais da classe trabalhadora, e inclusive as transfigura em seu conteúdo.”(MOTTA,p.35, 1999 apud HELLER,p.82,1987)

Para a apreensão das reais necessidades, se faz necessário que haja uma relação entre teoria e prática. Teoria e prática constituem aspectos inseparáveis do processo de conhecimento e devem ser consideradas na sua unidade, levando em conta que a teoria não só se nutre na prática profissional e histórica como também representa uma força transformadora que indica à prática os caminhos da transformação.
São indissociáveis, uma vez que a prática é o fundamento da teoria, ou seja, o ponto de partida e a base principal e substancial do conhecimento. O próprio conhecimento se desenvolve com base na prática, pois o conhecimento e as ciências surgem e se desenvolvem devido às necessidades da prática, às necessidades da vida. Na prática colocam-se à prova os conceitos e as teorias, estabelecem-se a sua veracidade ou falsidade, precisam-se e sistematizam-se os conhecimentos. Não se poder ter uma prática profissional fundamentada só na prática,uma vez que:

“ As ideias necessárias à cotidianidade jamais se elevam ao plano da teoria, do mesmo modo como a atividade cotidiana não é práxis [...]na cotidianidade a atividade individual não é mais do que uma parte da práxis, da ação total da humanidade que, construindo a partir de uma dado, produz algo novo, sem com isso transformar em novo o já dado.” (HELLER.p.32,1985)

A vida cotidiana se desenvolve em meio a muitas e variadas atividades econômicas,políticas, sociais e culturais; são essas atividades que preenchem grande parte dos seus interesses e preocupações. Essa é a nossa realidade imediata, nela os trabalhadores vivem situações,problemas e necessidades, sempre situadas em um contexto econômico, político, ideológico e histórico mais amplo.
Estas necessidades, situações e tarefas que surgem da realidade imediata e da realidade nacional não estão separadas entre si. O trabalho, a vida cotidiana, a conjuntura nacional, a situação estrutural de nossa sociedade, formam um todo articulado.

“Longe da tradição positivista, uma ação profissionalreconstrói metodologicamente o caminho entre a demanda objetivada e as relações que a determinam. É este movimento que garante, na particularidade de cada ação profissional, a reconstrução dos seus objetos de intervenção e das suas estratégias de ação...até chegar aos ponto de partida, mas desta vez não como uma representação caótica do todo, porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas.”(Mota,p.48,1999)

O assistente social, ao aperceber-se da existência desses vínculos, de suas relações e contradições, enfim, desses imbricamentos, pode desenvolver a sua ação profissional de modo mais crítico na medida em que supera a leitura do aparente imediato e dá conta da totalidade:

“essencialmente processual, dinâmica, cujos complexos, em interação mútua, possuem um imanente movimento. No limite, esse movimento produz uma dada legalidade social, historicamente determinada e determinante. Atua na particularização das relações entre os vários complexos do ser social.” (PONTES,p.81,2007)

Para se conhecer essa totalidade se faz necessário partir da prática, teorizar sobre ela e voltar à prática pára transformá-la, ou seja, partir do concreto, realizar um processo de abstração, entendida como “ a capacidade que a razão humana tem de ultrapassar a imediaticidade, captando as conexões submersas na imediaticidade do real”(PONTES,p.69,2007) e regressar ao concreto para transformá-lo, esse é o processo dialético do conhecimento. Este processo que vai da prática à teoria, é certamente, muito mais complexo que “fazer uma reflexão sobre uma ação ou situação”. Implica exercitar e desenvolver distintas capacidades intelectuais.
A compreensão teórica deve verificar-se novamente na prática para confirmar sua validade e sua verdade. O conhecimento não retorna, entretanto, a sua antiga forma de percepção de situações isoladas, mas enriquecido com uma capacidade de interpretação mais rica e valiosa destes mesmos. Compreender as contradições nos permitirá regressar a nossa realidade imediata com elementos de orientação sobre o que fazer para resolvê-las, estes elementos nos permitirão definir uma prática transformadora.

“ o agente social ao entranhar-se com suas ações sociais no cerne das relações dar-lhes uma direção de forma crítica e alienada. Ao imprimir uma direção alienante tende a mistificá-las e homogeneizá-las, caracterizando-as de forma fetichizada e aparente, que em síntese, é também uma forma de desapropriação do real crítico.”
(OLIVEIRA,p.82,1988)

O desvelamento do significado real dos serviços prestados e não significado fetichizado pelos interesses do capital, apresenta-se como importante campo de luta para os trabalhadores em geral e para os assistentes sociais em particular dada a sua inserção neste terreno. É necessário “desvelar e decifrar o movimento histórico-social contemporâneo da ordem burguesa; sua estrutura, sua dinâmica, suas tendências; o que importa é empenhar a razão teórica como iluminadora dos processos constituintes desta socialidade determinada.”(NETTO, p.33,2001). A compreensão dos processos e complexos inerentes a essa ordem pressupõe a penetração em categorias sociais cada vez mais complexas.
Aqui se localiza o desafio central para o assistente social, que é o de fazer a crítica dos fundamentos da cotidianidade tanto daquela em que ele se encontra inserido quanto a do cotidiano dos sujeitos sociais a quem presta serviços, o que significa examinar os fundamentos, analisá-los, reconhecê-los, para transcendê-los. O profissional consegue transcender quando se apodera da categoria mediação, que “dá a visibilidade panorâmica do sentido da palavra dialética, porque deixa transparentes as articulações categoriais do 'núcleo': a totalidade,a negatividade, e a mediação se imbricam num todo complexo,lógico e coerente.”(PONTES, p.56,2007)
Cabe ressaltar que o assistente social não é um “mediador”, não realiza mediações, uma vez que “a categoria de mediação não é uma estrutura nascida nas 'maquinagens do intelecto', mas de fato,[...] ela é componente estrutural do ser social.”(PONTES,p.77,2007). Não cabe ao assistente social “criar” mediações, uma vez que elas são expressões históricas das relações que o homem edificou com a natureza e consequentemente das relações sociais daí decorrentes, nas várias formações sócio-humanas que a história registrou.

“Não pode existir nem na natureza, nem na sociedade nenhum objeto que neste sentido[...]não seja mediato,não seja resultado de mediações. Deste ponto de vista a mediação é uma categoria objetiva, ontológica, que tem que estar presente em qualquer realidade, independente do sujeito.”(PONTES,p.79,2007,apud LÚKACS,1979)

O recurso à categoria de mediações foi presidido pela pressão das demandas postas pela realidade à profissão, que forçaram a necessidade de um amadurecimento teórico para levar a cabo a tarefa de avanço profissional, provocada pelos impulsos da própria realidade. A mediação permite à razão construir categorias para auxiliar a compreensão e ações profissionais e supera a dicotomia entre teoria e prática, uma vez que se processam mediações entre teoria e prática e vice-versa.
A mediação é o que diferencia um exercício profissional crítico das práticas assistenciais, voluntaristas, desenvolvidas por leigos e por ações voluntárias. Para a superação da confusão acerca da imagem social com a ação prestada por leigos de “boa vontade”, deve-se fazer a crítica ontológica do cotidiano, de modo que possamos tornar nossa prática profissional consciente.

“Ao clarificar seus objetivos sociais,[...]compreender o significado real da profissão no contexto da sociedade capitalista, escolher crítica e adequadamente os meios éticos para o alcance de fins éticos, orientados por um projeto profissional crítico, os assistentes sociais estão aptos, em termos de responsabilidade, a realizar uma intervenção profissional de qualidade, competência e compromisso indiscutíveis.”(GUERRA,p.15,2007)

O assistente social deve perceber a realidade como totalidade, de modo a perseguir suas mediações, apanhar as contradições do real não como vício do pensamento, mas como possibilidades inerentes à própria realidade pelas quais o profissional poderá fazer a leitura da realidade e em tais contradições captar as possibilidades de intervenção e as perspectivas de seu enfrentamento. Assim, sua prática profissional passa a se diferenciar da prática de leigos, posto que não se reduz a atividades burocrático-administrativas, já que o projeto lhe permite ter clareza da sua intencionalidade, decifrando o significado das demandas, captando a necessidade que subjaz a elas.

“a competência ultrapassa saberes e conhecimentos mas não se constitui sem eles. É necessário que hajauma intervenção reflexiva e eficaz, no sentido de articular dinâmicas de conhecimentos, saberes, habilidades, valores e posturas. Mas ela é uma concepção fundamentalmente inclusiva, relacional e determinada social e historicamente.”(GUERRA,p.28,2007)

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

FERNANDES, Idília.”A dialética das possibilidades:a face interventiva do Serviço Social.”Revista Virtual Textos & Contextos.n.4, dez.2005

GUERRA,Yolanda. “O projeto profissional crítico:estratégia de enfrentamento das condições contemporâneas da prática profissional.”Serviço Social & Sociedade. São Paulo: Cortez,n.91.set.2007

HELLER,Agnes. “Teoria de las necesidades em Marx.” Ed. Península, Barcelona.1987.

JARA,Oscar. “Como conhecer a realidade para transformá-la?”CEPIS,São Paulo.1986.

KAMEYMA, Nobuco. “Metodologia:uma questão em questão.”Cadernos ABESS,n.3. São Paulo, 1988

MOTA,Ana Elisabete. “Reestruturação produtiva e Serviço Social.” Revista Praia Vermelha. vol.1,n.2. Rio de Janeiro, UFRJ, 1° Sem. De 1999.

NETTO,José Paulo. “O Movimento de Reconceituação 40 anos depois.” Serviço Social & Sociedade .n.84. São Paulo, Cortez,2005

_________________ “O serviço social e a tradição marxista.” Serviço Social & Sociedade .n.30. São Paulo, Cortez,1989

_________________ “Crise do socialismo e ofensiva liberal.” 3.ed. São Paulo, Cortez,2001


OLIVEIRA, Raimunda Nonato Cruz. “A mediação na prática profissional do assistente social” Serviço Social & Sociedade .n26. São Paulo, Cortez,1988

PONTES,Reinaldo Nobre. “Mediação e serviço social:um estudo preliminar sobre a categoria teórica e sua apropriação pelo serviço social.”4.ed. São Paulo: Cortez, 2007

______________________ “Mediação: Categoria fundamental para o trabalho do assistente social.”
Capacitação em Serviço Social e Política Social. Brasília, Unb,CFESS.2000

2 comentários:

Maísa Reis disse...

Párabéns pelo blog e pelas belíssimas postagens... Super bacana...
Quero convidar a todos também para acessarem meu blog, www.maisareis.blogspot.com, onde publico alguns artigos que produzo, com a intenção de contribuir na socialização da informação!!!
Abraços! Maísa Reis - UFF Campos dos Goytacazes.

pensandoemfamilia disse...

Olá

Parabenizo pelo blog e sua proposta. Sou assistente social, da "velha guarda" com uma graduação em Serviço Social que se diferencia da atual. Sempre tive paixão pelo que faço e houve momentos que senti minha identidade profissional ameaçada.
Abços